Do Românico às Galerias: Arte no Porto entre Cedofeita, os Clérigos e a Rua de Miguel Bombarda
Um passeio de arte pelo Porto: a igreja mais antiga da cidade, a Livraria Lello, o barroco de Nasoni, a cela de Camilo, os homens que riem na Cordoaria, O Desterrado de Soares dos Reis e a rua das galerias
Porto · 11 stops · 24 min audio · Generated
-
1. Igreja Românica de Cedofeita: a Igreja Feita Depressa
Largo do Priorado, 4050-454 Porto, Portugal
Para no pequeno largo e repara no contraste. Ao lado tens uma igreja grande, do século XX; à tua frente, uma igrejinha de granito escuro, baixa e robusta, com paredes grossas e janelas estreitas como frestas. É a Igreja Românica de Cedofeita, e é muito provavelmente o edifício mais antigo que vais ver hoje.
O nome esconde uma lenda em latim. Conta-se que, no século VI, o rei suevo Teodomiro, que governava a partir de Braga, tinha um filho gravemente doente e mandou buscar relíquias de São Martinho de Tours. O filho curou-se, o rei converteu-se, e mandou erguer aqui uma igreja tão depressa que lhe chamaram cito facta, feita depressa. De cito facta a Cedofeita foi um saltinho de muitos séculos.
O edifício que vês não é do século VI, claro. É românico, do século XII, levantado sobre construções mais antigas, e é um dos raros testemunhos desse estilo que sobreviveram dentro da cidade. Repara nos capitéis do portal, com motivos vegetais e animais talhados em granito, uma pedra dura que não perdoa um golpe de cinzel mal dado. Os canteiros medievais não assinavam as obras, mas deixaram aqui o primeiro museu de escultura do Porto, ao ar livre e sem bilheteira.
Durante séculos, isto não era cidade nenhuma. Cedofeita era um couto, uma terra à parte, com privilégios próprios, fora das muralhas do Porto, no meio de campos e quintas. Só no século XIX a cidade a engoliu, com ruas novas, oficinas e casas de operários. A igrejinha ficou, encolhida entre prédios, como uma avó que não sai do seu canto da sala.
Este passeio é sobre arte e começa aqui por uma razão: vais caminhar do mais antigo para o mais novo, da pedra românica às galerias de arte contemporânea. Segue agora até à Rua de Cedofeita, a rua comprida que leva o nome desta igreja, e desce-a para sul, devagar, de olhos postos nas fachadas.
-
2. Rua de Cedofeita: Ler as Fachadas de Azulejo
Rua de Cedofeita, 4050-180 Porto, Portugal
Abranda a meio da Rua de Cedofeita e olha para as fachadas, não para as montras. Casas estreitas de três e quatro andares, varandas de ferro, portas altas de madeira, e paredes inteiras forradas de azulejos de padrão, verdes, azuis, amarelos, alguns com relevo que se sente com a ponta dos dedos.
No Porto, o azulejo na fachada é sobretudo uma moda do século XIX. Durante séculos o azulejo tinha vivido dentro das igrejas e dos palácios; de repente saiu à rua e passou a vestir casas de comerciantes. Diz-se que os portugueses que voltavam ricos do Brasil, os chamados brasileiros de torna-viagem, trouxeram o gosto pelas fachadas de azulejo, que lá protegiam as casas do calor e da humidade. Seja como for, o Porto adotou-o com um entusiasmo que ainda hoje se vê.
Repara na diferença entre os padrões. Alguns são estampados, com o desenho repetido como papel de parede. Outros são em relevo, com flores e estrelas a saírem do barro. As fábricas da zona, em Massarelos e em Vila Nova de Gaia, produziam-nos aos milhares, e cada proprietário escolhia o seu padrão como quem escolhe um tecido. Uma rua destas é um mostruário de arte industrial ao ar livre, e quase ninguém repara.
Agora espreita, se vires um corredor estreito entre duas portas. Muitas vezes, no Porto, atrás das fachadas bonitas escondiam-se as ilhas: filas de casinhas minúsculas construídas nos quintais, no século XIX, para os operários das fábricas, com uma única passagem para a rua. A fachada era para os outros verem; a vida dura ficava lá atrás. Algumas ilhas ainda existem, e há quem as recupere hoje com muito orgulho.
A Rua de Cedofeita sempre foi rua de comércio, de alfaiates, retrosarias, sapatarias e cafés de bairro, e hoje mistura lojas antigas com lojas de design. Continua a descer até ao fim, onde a rua desagua numa praça com jardim, esplanadas e um monumento de guerra: a Praça de Carlos Alberto.
-
3. Praça de Carlos Alberto: o Rei que Veio Morrer ao Porto
Praça de Carlos Alberto, 4050-157 Porto, Portugal
Entra na praça e vai até ao monumento de granito e bronze, com figuras de soldados, erguido em memória dos mortos da Grande Guerra. À volta, a praça abre-se em esplanadas, bancos e fachadas antigas, com ar de sala de visitas de um bairro que gosta de conversar.
Quem foi Carlos Alberto? Não era português. Era o rei da Sardenha e do Piemonte, que em 1849, depois de perder a batalha de Novara contra os austríacos, abdicou a favor do filho e escolheu o exílio num lugar bem longe de Turim: o Porto. Chegou doente e abatido, e morreu poucos meses depois, nesse mesmo verão de 1849.
O filho que ficou com a coroa era Vítor Emanuel II, que anos mais tarde seria o primeiro rei de Itália unificada. Por isso, quando os italianos contam a história da unificação, há um capítulo que termina aqui, numa cidade de granito à beira do Atlântico. A casa onde Carlos Alberto morreu, junto aos jardins do Palácio de Cristal, é hoje um pequeno museu, e a cidade deu o nome do rei exilado a esta praça.
O monumento lembra outro luto. Na Primeira Guerra Mundial, milhares de soldados portugueses foram enviados para a Flandres, e a 9 de abril de 1918, na batalha de La Lys, o Corpo Expedicionário Português sofreu uma das piores derrotas da sua história. Nos anos seguintes, quase todas as cidades do país quiseram ter um monumento como este. É arte pública nascida da dor, feita para que os nomes não se perdessem.
Antes de saíres, repara nas ruas à volta, como a da Galeria de Paris, que à noite se enche de gente e de música: é o lado boémio deste bairro. Agora desce pelas ruas que ligam a praça à Rua das Carmelitas e procura a montra mais fotografada do Porto, com uma fila à porta.
-
4. Livraria Lello: a Escada e a Lenda
Rua das Carmelitas 144, 4050-161 Porto, Portugal
Para do outro lado da rua e olha bem para a fachada antes de te juntares à fila. É neogótica, clara, com arcos pontiagudos, vitrais e duas figuras pintadas que representam a Arte e a Ciência. Lá em cima, em letras grandes, o nome dos irmãos que a fundaram.
A Livraria Lello & Irmão abriu aqui em 1906, numa época em que o Porto tinha uma vida literária intensa e editoras com peso em todo o país. O projeto é do engenheiro Francisco Xavier Esteves, e por dentro tudo é ainda mais teatral: tetos de gesso pintado que imitam madeira, uma claraboia de vitral com a divisa Decus in Labore, a dignidade no trabalho, e ao centro a famosa escadaria vermelha que se divide em dois braços e volta a juntar-se, como uma frase com duas orações.
Agora a lenda. Durante anos contou-se que J. K. Rowling se tinha inspirado nesta escadaria para imaginar a biblioteca de Hogwarts, e milhões de visitantes acreditaram. Em 2020, a própria escritora veio dizer que nunca tinha estado na livraria. Não importa: a lenda já tinha transformado uma livraria de bairro num dos lugares mais visitados do país.
Pensa no paradoxo. Uma livraria onde muita gente entra para fotografar uma escada e sai sem um livro, e que mesmo assim continua a vender livros e a editá-los, num tempo em que tantas livrarias fecham. Há quem diga que a fama salvou a Lello; há quem diga que a fama a engoliu. Talvez as duas coisas sejam verdade, e talvez seja essa a sina das obras de arte que o mundo inteiro quer ver ao mesmo tempo.
Seja como for, a fachada é tua de graça, e ao fim da tarde, com a luz rasante, os vitrais ganham uma cor de mel. Agora atravessa o jardim de oliveiras plantado no topo da Praça de Lisboa e vais dar, de frente, com a torre mais famosa da cidade.
-
5. Torre e Igreja dos Clérigos: o Granito de Nasoni
Rua de São Filipe de Nery, 4050-546 Porto, Portugal
Para ao pé da torre e inclina a cabeça para trás até onde o pescoço deixar. Cerca de setenta e cinco metros de granito barroco, andares sobrepostos como um bolo de noiva, sinos, relógio e, lá no topo, a cruz. Durante muito tempo foi a construção mais alta do país, e diz-se que os barcos que entravam no Douro a usavam como farol de pedra.
O autor é um italiano, Nicolau Nasoni, nascido na Toscana, que chegou ao Porto em 1725 para pintar... e nunca mais se foi embora. Veio como pintor decorativo, trabalhou na Sé, e acabou por se tornar o arquiteto do barroco portuense. A igreja começou a ser construída em 1732, e a torre ficou pronta em 1763. Tem mais de duzentos degraus, contados por quem sobe com as pernas a tremer.
Há uma história menos conhecida sobre este terreno. Conta-se que este alto, então à saída da cidade, servia para enterrar condenados e pobres sem família, um lugar que ninguém queria. A Irmandade dos Clérigos Pobres ficou com ele e ergueu ali o edifício mais orgulhoso do Porto. E Nasoni, que morreu em 1773, pediu para ser sepultado na igreja que desenhou. Está lá, em lugar incerto, debaixo do chão que projetou.
Repara na planta da igreja: é oval, uma forma rara em Portugal, e a fachada está cheia de movimento, conchas, volutas e grinaldas talhadas em granito, uma pedra que torna cada curva uma pequena proeza. Nasoni tratou o granito como se fosse mármore italiano. É por isso que este barroco é tão diferente do de Lisboa: mais escuro, mais pesado, mais dramático, e ao mesmo tempo surpreendentemente leve no desenho.
Agora desce pelo Campo dos Mártires da Pátria até ao grande edifício quadrado de granito à tua frente, de janelas gradeadas. Parece um palácio, mas durante quase dois séculos foi uma prisão.
-
6. Centro Português de Fotografia: a Cela de Camilo
Largo Amor de Perdição, 4050-008 Porto, Portugal
Para diante da fachada e conta as janelas: grandes, regulares, todas com grades de ferro. Este edifício enorme, quase sem enfeites, era a Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, e hoje é o Centro Português de Fotografia. As celas onde se sofria tornaram-se salas onde se olha. Poucos edifícios do Porto mudaram tanto de alma sem mudar de pedra.
Foi construída na segunda metade do século XVIII e funcionou como prisão até 1974. Em 1860 entrou aqui um preso famoso: o escritor Camilo Castelo Branco, acusado de adultério com Ana Plácido, uma mulher casada com um rico comerciante. Ela também foi presa. Ficaram ambos no mesmo edifício, em alas diferentes, durante cerca de um ano, até serem absolvidos em 1861.
E foi aqui dentro, numa cela, que Camilo escreveu Amor de Perdição, conta-se que em poucas semanas. É a história de Simão Botelho, um rapaz que ama a filha do inimigo do pai, acaba preso nesta mesma cadeia e é condenado ao degredo na Índia. Simão era tio do próprio Camilo... o escritor estava a escrever a tragédia da família entre as paredes onde ela tinha acontecido. É por isso que o largo diante de ti se chama Largo Amor de Perdição.
Na cadeia, Camilo conheceu também o mais famoso salteador do Norte, o Zé do Telhado, que roubava aos ricos e, diz a lenda, dava aos pobres. Camilo escreveu sobre ele nas suas Memórias do Cárcere. Imagina as conversas: um romancista e um bandido, de cela para cela, a trocar histórias que nenhum dos dois podia contar lá fora.
Hoje, lá dentro, há exposições de fotografia e uma coleção de máquinas fotográficas antigas, e as grades continuam nas janelas, a enquadrar a cidade como se fossem molduras. Sai e atravessa para o jardim cheio de árvores ao lado, a Cordoaria. Lá dentro há treze homens a rir... vais perceber porquê.
-
7. Jardim da Cordoaria: Treze a Rir Uns dos Outros
Campo dos Mártires da Pátria, 4050-366 Porto, Portugal
Entra no jardim e procura-os entre as árvores: figuras cinzentas, quase do tamanho de uma pessoa, umas de pé, outras empoleiradas, todas parecidas, todas a rir. Riem-se umas das outras, de boca aberta, e de repente sentes que também se estão a rir de ti.
A obra chama-se Treze a Rir Uns dos Outros e é do escultor espanhol Juan Muñoz. Foi feita para o Porto 2001, o ano em que a cidade foi Capital Europeia da Cultura. Muñoz era um dos grandes nomes da escultura contemporânea, conhecido por pôr figuras humanas em situações estranhas, à espera, a observar, a conversar sem se ouvirem. Morreu nesse mesmo ano de 2001, com apenas quarenta e oito anos, e esta acabou por ser uma das suas últimas obras.
Repara como cada figura olha para outro lado, como o riso passa de uma para outra sem nunca chegar a lado nenhum. Ninguém sabe do que se riem. Talvez das pessoas que passam. Talvez da própria cidade, sempre tão séria no seu granito. É arte contemporânea que não pede licença: está no meio de um jardim público, ao alcance de crianças, pombos e reformados que vêm conversar para a sombra.
O nome Cordoaria vem dos cordoeiros, os artesãos que aqui esticavam e torciam as cordas e os cabos de que os barcos precisavam, num terreiro comprido e aberto que servia na perfeição. Oficialmente, o jardim chama-se de João Chagas, um jornalista republicano ligado à revolta de 31 de janeiro de 1891. Repara também nas árvores antigas, de troncos retorcidos e grossos: há quem diga que são elas o verdadeiro monumento do jardim.
Agora sai pelo lado norte do jardim e sobe uns metros. Vais dar de caras com duas igrejas encostadas uma à outra, uma delas com uma parede lateral inteira de azulejos, e entre elas um segredo com um metro de largura.
-
8. Igrejas do Carmo e dos Carmelitas: a Casa Escondida
Rua do Carmo, 4050-164 Porto, Portugal
Põe-te de frente para as duas igrejas e olha para o meio delas. À esquerda, a Igreja dos Carmelitas, sóbria; à direita, a Igreja do Carmo, barroca e rococó. E entre as duas... uma fachada estreitíssima, com uma porta e janelas, que parece uma ranhura aberta no granito.
Essa ranhura é uma casa. Com cerca de um metro de largura, é uma das casas mais estreitas do Porto, e foi construída entre as duas igrejas para que elas não partilhassem a mesma parede. A explicação mais repetida é que a Igreja dos Carmelitas pertencia a um convento de freiras e a do Carmo a uma ordem de homens, e não se queria os dois edifícios encostados. A casinha servia de fronteira... e conta-se que houve gente a viver nela até ao final do século XX.
Agora dá a volta à Igreja do Carmo pela Rua do Carmo e olha para a parede lateral. O grande painel de azulejos foi feito em 1912, com desenho de Silvestre Silvestri, e mostra cenas ligadas à Ordem do Carmo e ao Monte Carmelo. Mais uma vez, o Porto do século XX a pintar azul à maneira antiga, em ponto grande, para ser visto da rua e da janela do elétrico que passa mesmo ao lado.
Repara ainda na diferença de idades. A Igreja dos Carmelitas é do século XVII, de linhas austeras, quase militares; a do Carmo é do século XVIII, cheia de curvas, conchas e movimento. Duas épocas, duas ordens religiosas, dois gostos, e uma casa de um metro a impedir que se tocassem. Se entrares, a talha dourada do Carmo vai mostrar-te até onde o barroco portuense estava disposto a ir.
Agora segue para poente, contornando o topo do jardim da Cordoaria, até um edifício neoclássico gigantesco, de colunas e frontão, que ocupa um quarteirão inteiro. Parece um palácio inglês, e de certa forma é.
-
9. Hospital de Santo António: um Palácio Inglês
Largo do Professor Abel Salazar, 4099-001 Porto, Portugal
Recua o suficiente para caber a fachada no olhar: colunas, frontão, janelas em fila, uma escala que parece pensada para uma capital. É o Hospital de Santo António, e tem muito mais ar de palácio inglês do que de hospital português.
E é quase isso. Foi a Santa Casa da Misericórdia do Porto que o encomendou, e o projeto veio de Inglaterra, do arquiteto John Carr, de York, que nunca chegou a vir à cidade. A obra começou em 1770, numa época em que a comunidade inglesa do vinho do Porto tinha peso, dinheiro e gosto, e trouxe para a margem do Douro o neopaladianismo inglês, uma arquitetura de simetria, colunas e calma.
O projeto era gigantesco: um grande quadrilátero com pátio central. Se olhares com atenção, vais perceber que nunca foi acabado como Carr o desenhou. Faltou dinheiro, mudaram os tempos, e o hospital foi crescendo aos bocados ao longo de décadas. É um dos maiores edifícios neoclássicos de Portugal e, ao mesmo tempo, um sonho inglês interrompido a meio da frase.
O largo à frente chama-se Professor Abel Salazar, e o nome merece uma pausa. Abel Salazar foi médico, investigador e professor de medicina no Porto, e também pintor e desenhador de grande talento. O regime de Salazar, que não era seu parente, afastou-o da universidade nos anos trinta por causa das suas ideias. Ele continuou a investigar e a pintar operários, lavadeiras e mulheres do povo, e a cidade guarda hoje essa obra com orgulho.
Repara como a arte aparece onde menos se espera: um cientista que desenhava, um hospital desenhado por um arquiteto de palácios. Agora contorna o hospital e segue para poente pela Rua de Dom Manuel II, uns duzentos metros, até um palácio cor de pedra com um portão de ferro. Lá dentro está a estátua mais triste de Portugal.
-
10. Museu Nacional Soares dos Reis: O Desterrado
Rua de Dom Manuel II 44, 4050-522 Porto, Portugal
Atravessa o portão e para no pátio do Palácio dos Carrancas, uma casa nobre do final do século XVIII, comprida e sóbria, de janelas regulares. Hoje é o Museu Nacional Soares dos Reis, e é aqui que o Porto guarda boa parte da sua arte.
O museu é mais antigo do que a sua presença neste palácio. Foi fundado em 1833 por D. Pedro IV, em pleno cerco do Porto, com pinturas recolhidas dos conventos abandonados, e é considerado o primeiro museu público de arte do país. Imagina: uma cidade bombardeada, com fome e cólera, e um rei a pensar em quadros. Só no século XX as coleções se mudaram para aqui.
O palácio tem a sua própria lenda. Em 1809, durante a segunda invasão francesa, o marechal Soult instalou-se nesta casa. Quando as tropas de Wellesley, o futuro duque de Wellington, atravessaram o Douro de surpresa, Soult fugiu tão depressa que, conta-se, o inglês se sentou à mesa e comeu o jantar que tinha sido preparado para o francês.
Mas a peça que vieste ver é uma escultura de mármore branco: O Desterrado, de António Soares dos Reis. Um jovem nu, sentado numa rocha, com as mãos entrelaçadas sobre os joelhos e o olhar perdido. Soares dos Reis esculpiu-o em Roma, em 1872, quando era bolseiro e estava longe de casa, e muitos portugueses veem nele a saudade feita pedra. O escultor, nascido em Vila Nova de Gaia, teve uma vida difícil e pôs fim à própria vida em 1889, no seu atelier.
Lá dentro há ainda pintura portuguesa do século XIX, cerâmica, ourivesaria e biombos Namban que contam a velha ligação de Portugal ao Oriente. Quando saíres, sobe para norte por uma das ruas transversais até à Rua de Miguel Bombarda. Depois de tanta arte de museu, vais ver a arte que ainda está a nascer.
-
11. Rua de Miguel Bombarda: a Rua das Galerias
Rua de Miguel Bombarda, 4050-377 Porto, Portugal
Caminha devagar pela Rua de Miguel Bombarda e espreita para dentro de cada porta. Galerias de arte, umas minúsculas, outras de paredes brancas e luz de museu, lojas de design, de ilustração, de discos, livrarias independentes e murais pintados nas paredes. É a rua onde o Porto mostra a arte que ainda não entrou nos museus.
O nome é de Miguel Bombarda, médico psiquiatra e político republicano, diretor do hospital de alienados de Rilhafoles, em Lisboa. Foi assassinado a tiro por um antigo doente a 3 de outubro de 1910, na véspera da revolução que proclamou a República. Muitos republicanos tomaram a morte como sinal para avançar... e dois dias depois Portugal deixou de ter rei.
A transformação da rua começou nos anos noventa, quando os primeiros galeristas se instalaram aqui, atraídos pelas casas antigas com rés do chão amplo e por rendas mais baixas do que no centro. Em poucos anos isto virou o bairro das artes, e as galerias passaram a inaugurar exposições ao mesmo tempo, em sábados combinados, com a rua cheia de gente de copo na mão a passar de porta em porta.
Repara num velho centro comercial transformado em ninho de lojas criativas, nos quintais escondidos ao fundo dos corredores, nas fachadas de azulejo de padrão como as que leste em Cedofeita. A arte contemporânea instalou-se dentro da cidade velha sem a demolir. É talvez a lição mais bonita deste passeio: o novo não precisa de apagar o antigo para ter lugar.
Começaste numa igreja românica com quase novecentos anos e acabas numa rua de galerias onde a tinta ainda está fresca. Pelo caminho viste o barroco de Nasoni, os azulejos do Carmo, a cela de Camilo, os homens que riem na Cordoaria e a saudade em mármore de Soares dos Reis. Ao fundo da rua voltas a encontrar a Rua de Cedofeita, e a Baixa fica a poucos minutos a pé... mas não te apresses. No Porto, a arte quer-se vista devagar.