Onde o Douro Encontra o Mar: Foz do Douro e a Marginal do Porto até ao Castelo do Queijo
Do cais dos pescadores da Cantareira ao farolim batido pelas ondas, das palmeiras do Passeio Alegre às poças de maré e ao forte de granito: a costa atlântica do Porto a pé
Porto · 11 stops · 24 min audio · Generated
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1. Cantareira: O Cais dos Pescadores da Foz
Rua da Cantareira, Foz do Douro, 4150 Porto, Portugal
Encosta-te ao muro do cais e olha para a água: aqui o Douro já quase não é rio, já cheira a mar. Barcos de pesca pintados de azul, vermelho e amarelo balançam presos às argolas, há redes a secar no chão e gaivotas pousadas à espera do que sobrar. Estás na Cantareira, o velho cais dos pescadores da Foz. Ao fundo, para poente, uma linha branca de rebentação marca o sítio onde a água doce se rende.
A Foz do Douro nem sempre foi Porto. Durante séculos foi uma povoação à parte, de pescadores, marinheiros e pilotos da barra, longe das muralhas da cidade. Quem vivia aqui sabia ler o rio e o mar como ninguém: o vento, a cor da água, o sítio onde a areia tinha mudado durante a noite. Os pilotos subiam a bordo dos navios que chegavam e guiavam-nos pela entrada mais traiçoeira da costa, com muito ofício e muito risco. Diz-se que ainda há velhos da Foz que, quando sobem à Baixa, dizem que vão ao Porto, como quem vai a outra terra.
Foi nesta Foz que nasceu, em 1867, o escritor Raul Brandão. Muitos anos depois escreveu Os Pescadores, um livro sobre a gente do mar da costa portuguesa, cheio de luz, de sal e de pobreza. Lê-lo aqui, com o cheiro a peixe e a maresia, é outra coisa... percebes de onde vinham aquelas frases.
Agora olha para a outra margem. Aquela língua de areia do lado de Gaia é o Cabedelo, e a baía abrigada atrás dela, a de São Paio, é hoje uma reserva natural. No inverno e nas épocas de migração juntam-se ali garças, corvos-marinhos e pequenas aves de patas finas que correm atrás de cada onda. Uma reserva natural às portas de uma área metropolitana com mais de um milhão de pessoas... não é coisa que se veja em qualquer cidade.
Repara também na corrente: quando a maré está a encher, o mar empurra o rio para trás, e as duas águas lutam mesmo à tua frente. Segue pela marginal em direção ao mar, sempre ao lado dos carris do elétrico. O jardim das palmeiras, ali adiante, é onde a linha 1 termina a sua viagem ao longo do rio.
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2. Jardim do Passeio Alegre: Palmeiras, Obeliscos e Elétrico
Rua do Passeio Alegre, Foz do Douro, 4150 Porto, Portugal
Entra no jardim por entre as palmeiras e abranda o passo, que aqui ninguém tem pressa. Canteiros desenhados a régua, bancos virados para o rio, velhotes a jogar às cartas, miúdos de bicicleta... Estás no Jardim do Passeio Alegre, e o nome diz exatamente o que se vinha cá fazer.
O jardim ganhou esta forma na segunda metade do século XIX, quando a Foz se tornou moda. As famílias do Porto vinham passar o verão a banhos, alugavam casas, passeavam ao fim da tarde para ver e ser vistas. Foi precisamente para trazer essa gente até ao mar que se lançaram, ainda no século XIX, as primeiras linhas de carros americanos, puxados a cavalos, ao longo do rio.
Repara no chafariz ao centro e, nas pontas do jardim, nos dois obeliscos de granito. Segundo se conta, vieram da Quinta da Prelada e são atribuídos a Nicolau Nasoni, o arquiteto italiano da Torre dos Clérigos. Pedra barroca, trazida de longe, para enfeitar um passeio à beira-mar... é muito à maneira do Porto, uma cidade que nunca deitou fora um bom bocado de granito. E as palmeiras altas, plantadas para dar ao jardim um ar de estância elegante, aguentam há gerações a nortada e o sal.
Mas a joia mais inesperada do jardim são... os urinóis públicos. A sério. São pequenos pavilhões Arte Nova, do início do século XX, com ferro trabalhado e cerâmica, tão bonitos que há quem os fotografe como se fossem capelas. Poucas cidades tiveram o cuidado de fazer arte de uma coisa tão prosaica, e menos ainda a conservaram.
Ouve o sino: é o elétrico da linha 1, que chega do Infante depois de seguir o rio quase de ponta a ponta e para aqui, no fim da linha. O condutor muda de cabine, os passageiros saem a cheirar o ar salgado, e o elétrico, de madeira envernizada, descansa uns minutos à sombra antes de voltar para trás. Segue para poente, pelo lado do rio, até às muralhas grossas que guardam a entrada da barra.
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3. Forte de São João Baptista da Foz
Avenida de Dom Carlos I, Foz do Douro, 4150 Porto, Portugal
Para diante destas muralhas baixas e grossas, de granito escuro, com os ângulos em bico virados para o mar. Parecem ter crescido das rochas. É o Forte de São João Baptista da Foz, e durante séculos foi a fechadura da porta do Douro.
A história começa com uma igreja, não com canhões. No século XVI, D. Miguel da Silva, bispo de Viseu, homem culto que tinha vivido anos em Roma como embaixador, mandou erguer aqui uma igreja ao gosto do Renascimento italiano, uma das primeiras do país nesse estilo. Imagina o contraste: colunas clássicas, proporções romanas, uma elegância que mal se conhecia em Portugal... no meio de uma aldeia de pescadores, de barcos virados na areia e de redes a secar.
A beleza durou pouco. A barra do Douro era a entrada de uma das cidades mais ricas do reino, e corsários e piratas rondavam a costa. No reinado de D. Sebastião, a igreja foi literalmente engolida por uma fortaleza: levantaram-se muralhas à volta dela, e o templo ficou lá dentro, preso entre baluartes. Mais tarde, depois de 1640, nas guerras da Restauração contra Espanha, o forte foi reforçado, e cada geração acrescentou pedra à pedra da anterior. É por isso que, vista de fora, a fortaleza parece uma cebola de granito, camada sobre camada.
O seu momento mais dramático chegou em 1832 e 1833, durante o Cerco do Porto. Os liberais estavam encurralados na cidade e as tropas absolutistas apertavam o cerco por terra. Quem controlasse a barra controlava os abastecimentos que chegavam por mar, e por isso aqui se trocaram tiros de canhão durante meses.
Do lado de fora, repara nos penedos onde as ondas rebentam: há quem venha pescar à linha, com a paciência de quem tem o dia todo. Ao lado, os corvos-marinhos secam as asas abertas ao vento, imóveis como bandeiras pretas. Atravessa a avenida com cuidado e segue o molhe comprido que entra pelo mar. Lá no fim, sozinho no meio da espuma, espera-te um pequeno farol.
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4. Farolim de Felgueiras: O Farol das Ondas Gigantes
Molhe de Felgueiras, Avenida de Dom Carlos I, 4150 Porto, Portugal
Caminha pelo molhe até onde te sentires seguro, sente o vento a empurrar-te de lado e olha para a pequena torre de granito lá no fim, sozinha entre o rio e o oceano. É o Farolim de Felgueiras, e é talvez o farol mais fotografado do Porto. Num dia calmo parece um brinquedo esquecido na ponta do paredão... mas não te deixes enganar.
Foi construído em 1886, no extremo do molhe de Felgueiras, uma torre hexagonal de pedra com a lanterna no topo. Não é alto nem imponente, e não precisa de ser: a sua função era marcar, de noite, a entrada da barra, para que os navios soubessem exatamente por onde passar.
E passar era perigoso. Durante séculos a barra do Douro foi uma das mais temidas da costa portuguesa: bancos de areia que mudavam de sítio a cada temporal, rochedos escondidos, ondas que se cruzavam com a corrente do rio. Muitos navios se perderam aqui, à vista de terra, enquanto as famílias da Foz assistiam das rochas sem nada poder fazer. Há naufrágios que a memória da Foz guarda até hoje.
No inverno, quando chega uma tempestade do Atlântico, este molhe transforma-se num espetáculo. Ondas de muitos metros galgam a pedra e engolem o farolim por inteiro, e por um segundo ele desaparece numa explosão branca, para logo voltar a aparecer, teimoso, a escorrer água. Os fotógrafos esperam por esses dias como quem espera por um eclipse... mas o molhe fica fechado, e com razão.
No início deste século construíram-se novos molhes na barra para domar a entrada e a areia do Cabedelo. O rio continua a mudar, só que agora mais devagar, e os pilotos da barra continuam a sair ao encontro dos navios, agora em lanchas a motor. Volta ao passeio e segue para norte, ao longo da costa. A marginal entra agora no mar aberto, entre rochas e pequenas praias com nomes cheios de história.
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5. Praia dos Ingleses: Ir a Banhos na Foz
Avenida do Brasil, Foz do Douro, 4150 Porto, Portugal
Desce o olhar até à pequena enseada de areia entre os rochedos escuros, com o mar a entrar e a sair em espuma. Chama-se Praia dos Ingleses, e o nome é um pedaço de história da cidade. Pequena, escondida, quase íntima, parece feita para quem conhece o caminho.
O Porto teve, desde há séculos, uma comunidade britânica forte, ligada sobretudo ao comércio do vinho do Porto. O Tratado de Methuen, de 1703, abriu o mercado inglês aos vinhos portugueses, e as casas exportadoras britânicas instalaram-se na cidade. Esses negociantes tinham os seus clubes, a sua igreja, os seus costumes... e, no verão, as suas praias preferidas. Esta era uma delas.
No século XIX, ir a banhos não era propriamente divertido. Os médicos receitavam banhos de mar frio como tratamento, e frio aqui é mesmo frio: a água do Atlântico, nesta costa, raramente aquece muito, nem em agosto. Havia barracas de lona às riscas, fatos de banho até aos joelhos e banheiros, homens robustos que seguravam os banhistas e os mergulhavam nas ondas, por vezes contra a vontade deles.
Olha para as rochas à tua volta. São granito, a mesma pedra das igrejas e das casas do Porto, polida pelo mar durante milhares de anos. Na maré baixa abrem-se fendas e poças cheias de vida, e o cheiro forte a algas é o perfume desta costa. É uma beleza áspera, sem palmeiras de postal, e é por isso mesmo que os portuenses a adoram.
Repara também no ar: muitas vezes, mesmo num dia quente, uma névoa fina vem do mar e esconde o horizonte em minutos. Os locais chamam-lhe simplesmente nevoeiro, e encolhem os ombros: daqui a uma hora, garantem, o sol volta. Muitas vezes têm razão. Continua pela Avenida do Brasil, para norte, a avenida que deve o nome a um país do outro lado do oceano.
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6. Avenida do Brasil: Palmeiras, Nortada e Brasileiros de Torna-Viagem
Avenida do Brasil, Foz do Douro, 4150 Porto, Portugal
Segue pelo passeio largo, com o mar sempre à tua esquerda, e sente o vento na cara. Estás na Avenida do Brasil, junto à Praia da Luz, e se for uma tarde de verão é quase certo que o vento sopra de norte, forte, a levantar areia e a encher as velas de quem anda no mar.
Esse vento tem nome: é a nortada. Nos meses quentes, ao longo da costa portuguesa, a nortada aparece à tarde com uma regularidade de relógio, refresca o ar e arrepia a água. Os turistas queixam-se, os portuenses agradecem. É ela que explica por que razão, mesmo em julho, há tanta gente na Foz de casaco às sete da tarde.
E porquê Brasil? Porque a história do Porto está atada ao outro lado do Atlântico. No século XIX, milhares de rapazes do Norte de Portugal emigraram para o Brasil, muitos ainda adolescentes. A maioria nunca enriqueceu, mas os que voltaram com fortuna, os chamados brasileiros de torna-viagem, quiseram mostrá-la: construíram palacetes, chalés de azulejo, jardins exóticos... e diz-se que a palmeira à porta era a sua assinatura.
Levanta os olhos para as fachadas do outro lado da avenida e procura esses sinais: azulejos coloridos, varandas de ferro, torreões, uma palmeira altíssima num quintal. Lá em cima, no alto da colina, ergue-se o velho Farol da Senhora da Luz, que durante muito tempo ajudou os barcos a encontrar a barra antes de existirem os faróis modernos. A Foz inteira é um diálogo entre quem partia e quem esperava.
Ao fim do dia, esta avenida tem um privilégio raro numa cidade europeia: o sol põe-se diretamente no mar, à tua frente, sem prédio nenhum a atrapalhar. Muita gente vem de propósito só para isso, e fica calada a ver o disco laranja desaparecer na água. Continua para norte, ao longo da avenida, até onde as rochas avançam pelo mar e a maré baixa deixa pequenos lagos entre as pedras.
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7. Rochedos de Gondarém: As Poças de Maré
Praia de Gondarém, Avenida do Brasil, Nevogilde, 4150 Porto, Portugal
Desce à beira dos rochedos de Gondarém, se a maré o permitir, e baixa-te sobre uma das poças que a água deixou entre as pedras. À primeira vista é só água parada e algas. Espera um bocadinho, sem fazer sombra... e a poça começa a mexer-se.
Um caranguejo pequeno corre de lado e esconde-se numa fenda. Uma anémona-do-mar, vermelha ou verde, abre os tentáculos como uma flor gelatinosa à espera de comida. Coladas à rocha estão as lapas, em forma de chapéu chinês, os mexilhões negros em cachos e as cracas, minúsculos vulcões brancos que só abrem quando a água volta. Cada poça é um aquário que a maré enche e esvazia duas vezes por dia.
E a maré aqui não é pouca coisa. Nas marés vivas, a diferença entre a maré cheia e a vaza pode passar dos três metros nesta costa. É isso que cria esta faixa estranha, metade do tempo mar, metade do tempo terra, onde só sobrevivem os seres mais teimosos: os que aguentam o sol, a chuva, a água doce, as ondas a bater e, no inverno, temporais capazes de arrancar pedras.
Durante gerações, as algas que o mar atira para estas praias foram riqueza. Na costa norte havia quem vivesse de as apanhar, os sargaceiros, que as secavam na areia e as vendiam aos lavradores para adubar os campos. Hoje quase ninguém as apanha, mas o cheiro forte do sargaço continua a ser o cheiro desta costa.
Uma regra de ouro: olha, fotografa, mas deixa tudo onde está. Uma lapa arrancada não volta a agarrar-se, e um caranguejo levado para casa dentro de um balde não sobrevive à viagem. E fica sempre de olho no mar, porque aqui uma onda maior aparece sem avisar. Volta à avenida e segue mais um pouco para norte, até à longa pérgola branca que parece saída de um postal da Riviera.
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8. Pérgola da Foz e Praia do Molhe
Avenida do Brasil, Nevogilde, 4150 Porto, Portugal
Caminha devagar por baixo da pérgola, entre as colunas brancas, com o mar a aparecer e a desaparecer entre elas como numa sequência de fotografias. É a Pérgola da Foz, sobre a Praia do Molhe, e é talvez o sítio mais romântico de toda a marginal.
Foi construída nos anos 30 do século XX, quando a cidade quis dar à sua avenida de mar um ar de estância elegante, à maneira das que se viam no Sul de França. Conta-se que a ideia nasceu de uma viagem a Nice, onde alguém influente na Câmara terá ficado encantado com uma pérgola parecida, à beira do Mediterrâneo. Verdade ou não, o resultado ficou: um terraço comprido, colunas, uma balaustrada, e o Atlântico como pano de fundo.
Só que isto não é o Mediterrâneo. Em Nice, a pérgola dá sombra contra um sol implacável. Aqui, metade do ano dá abrigo contra a chuva miúda e a nortada, e no inverno as ondas mais fortes chegam a molhar quem passeia. Os portuenses não se importam: vêm na mesma, de guarda-chuva, para ver o mar zangado.
Olha para baixo, para a Praia do Molhe. O nome vem do pequeno molhe de pedra que a protege, e a areia fica abrigada entre rochedos, o que a torna das praias mais procuradas da Foz. Ao fim da tarde, a pérgola enche-se: casais, famílias, fotógrafos à espera da luz certa, corredores a passar a ritmo. Há quem diga que metade dos pedidos de casamento do Porto acontecem aqui... ninguém os contou, mas acredita-se facilmente.
Repara nas gaivotas pousadas na balaustrada. São gaivotas-de-patas-amarelas, as grandes gaivotas da costa portuguesa, espertas e atrevidas, e não hesitam em tirar uma bolacha da mão de quem se distrai. Continua para norte pela marginal. Mais à frente, sozinho num pedestal sobre o mar, um pescador de bronze segura o leme com as duas mãos.
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9. Homem do Leme: O Pescador de Bronze
Avenida de Montevideu, Nevogilde, 4150 Porto, Portugal
Para diante da estátua e olha-a de frente: um homem de bronze, de pernas abertas, agarrado com as duas mãos ao leme de um barco, com os olhos postos no horizonte. Chamam-lhe o Homem do Leme, e deu nome à praia que tens ao lado.
Não representa ninguém em particular, e por isso representa toda a gente do mar. Os pescadores da Foz, de Matosinhos, da Afurada, de toda esta costa, saíam em barcos pequenos para um oceano que não perdoa. Em muitas famílias, a pergunta de cada noite era a mesma: voltaram todos? E nem sempre a resposta era sim.
Olha agora para norte, ao longe. Aqueles guindastes e paredões são o porto de Leixões, em Matosinhos. Foi construído no fim do século XIX precisamente por causa da barra do Douro que viste no princípio do passeio: a entrada do rio era tão perigosa e tão assoreada que os navios grandes já não conseguiam usá-la com segurança. O Porto precisava de um porto de mar a sério, e foi buscá-lo uns quilómetros acima, à costa aberta.
Repara no granito à volta da estátua. Este pedaço de costa é feito de rochedos que entram pelo mar como dedos, e entre eles abrem-se pequenas praias de areia clara. Nas manhãs de nevoeiro, a figura do pescador aparece e desaparece na névoa, e é fácil imaginar que está mesmo a navegar, às cegas, a guiar-se pelo barulho das ondas.
Dizem os mais velhos que um bom homem do mar não precisa de ver para saber onde está: chega-lhe o som da rebentação, o cheiro, o balanço do barco. Antes dos aparelhos eletrónicos, era assim que se voltava a casa, e quem não aprendia esse ofício não durava muito no mar. Segue pela Avenida de Montevideu, a avenida que continua a marginal para norte, rumo ao forte de granito que fecha o caminho.
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10. Avenida de Montevideu: O Atlântico Aberto
Avenida de Montevideu, Nevogilde, 4150 Porto, Portugal
Encosta-te ao muro da avenida e deixa que o barulho do mar ocupe tudo. Aqui a costa abre-se de vez: não há molhes, não há rio, só o Atlântico a chegar em filas de ondas, umas atrás das outras, desde muito longe.
Estás na Avenida de Montevideu, e o nome não é por acaso. Logo atrás ficou a Avenida do Brasil, e aqui chegamos à capital do Uruguai: a marginal do Porto é uma pequena viagem pela América do Sul, a lembrar quantos portugueses atravessaram este mesmo oceano à procura de vida melhor. Olhando para oeste, do outro lado da água, a primeira terra é mesmo a América.
Repara nas manchas pretas no meio das ondas: são surfistas e bodyboarders, à espera da onda certa, em qualquer estação do ano, de fato isotérmico grosso, porque a água aqui é fria. Quando entra uma ondulação forte de noroeste, esta costa enche-se deles desde manhã cedo. Para quem os vê de terra, parecem focas pacientes.
Agora olha mais longe, para o mar alto. Com sorte, sobretudo no outono, vês passar alcatrazes, grandes aves brancas de pontas das asas pretas, que voam em fila rente às ondas e de repente se atiram à água de cabeça, a pique, como setas, para apanhar peixe. É um dos espetáculos de natureza mais impressionantes da costa portuguesa, e acontece em frente a uma avenida cheia de trânsito.
Do outro lado da estrada estende-se o Parque da Cidade, o maior parque urbano do país, com mais de oitenta hectares de prados, lagos e bosques que descem quase até ao mar. É outro passeio, para outro dia, e dá para uma manhã inteira entre patos, árvores e muros de pedra antigos. Por agora, segue a avenida até ao fim, até à rotunda onde um pequeno forte de granito, plantado numa rocha, parece um queijo esquecido à beira-mar.
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11. Castelo do Queijo: O Forte na Rocha
Praça de Gonçalves Zarco, Nevogilde, 4150 Porto, Portugal
Chegaste ao fim da marginal. À tua frente, plantado sobre um penedo de granito à beira da água, está um pequeno forte de muralhas inclinadas e guaritas nos cantos, como um brinquedo de pedra. O nome oficial é Forte de São Francisco Xavier, mas ninguém lhe chama assim: para todo o Porto, isto é o Castelo do Queijo.
E porquê queijo? Repara na rocha onde assenta: um grande bloco de granito arredondado, que segundo a tradição lembrava a forma de um queijo. Há quem conte outras versões, mas esta é a que ficou, e é difícil olhar para o penedo depois de a ouvir sem lhe ver a forma.
O forte foi construído em meados do século XVII, nos anos das guerras da Restauração, depois de 1640, quando Portugal lutava para se manter independente de Espanha. A costa precisava de defesa contra ataques e desembarques, e esta ponta rochosa, entre a barra do Douro e a enseada de Leixões, era o sítio ideal para vigiar o mar. Hoje as muralhas olham para turistas e corredores em vez de navios inimigos.
Olha para norte, para lá da rotunda. Começa ali Matosinhos, e sobre a praça de lá flutua uma enorme rede vermelha suspensa no ar, desenhada pela artista norte-americana Janet Echelman e instalada em 2005. Os locais chamam-lhe a Anémona. Com o vento, ondula como um ser vivo, a lembrar as redes dos pescadores e as anémonas das poças que viste em Gondarém.
Pensa no caminho que fizeste: começaste num cais de pescadores, onde o Douro ainda era rio, e acabas aqui, de frente para o oceano aberto, entre faróis, fortes, palmeiras e rochas. Foi a viagem da água doce até ao mar. Fica um pouco, se puderes, e espera o pôr do sol sobre o Atlântico... é a melhor maneira de acabar um passeio pela Foz.