A Lisboa de Pessoa: Chiado e Bairro Alto, de livro em livro

Da livraria mais antiga do mundo ao gigante Adamastor: o prédio onde nasceu Fernando Pessoa, a Brasileira, Eça, Camões, as Conferências do Casino e os jornais do Bairro Alto

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  1. 1. Livraria Bertrand

    Rua Garrett 73, 1200 Lisboa, Portugal

    Encosta-te por um momento à montra da Rua Garrett e lê o nome com calma: Bertrand. Atrás do vidro está a livraria mais antiga do mundo ainda a funcionar, com salas compridas, estantes até ao teto e leitores que entram só para ver as novidades... e saem com três livros debaixo do braço.

    A história começa em 1732, quando livreiros franceses abriram uma loja noutra rua do Chiado. Mais tarde, o negócio passou para a família Bertrand, também francesa, que lhe deu o nome que ainda hoje vês por cima da porta. Em 2011, o Guinness confirmou o título: nenhuma livraria em funcionamento no mundo é mais velha do que esta. Lisboa, cidade que se queixa de ler pouco, guarda o recorde mundial da leitura.

    Depois veio a manhã de 1 de novembro de 1755. O terramoto, o maremoto e os incêndios destruíram a primeira loja, como destruíram meia cidade. Os livreiros recomeçaram num espaço provisório e, em 1773, mudaram-se para aqui, para a rua que então se chamava simplesmente Rua do Chiado. O nome de hoje veio no século XIX, em homenagem a Almeida Garrett, o poeta romântico das Viagens na Minha Terra e o homem que lutou por um teatro nacional.

    Agora imagina quem passou por estas salas. A casa gosta de lembrar nomes como Alexandre Herculano, o historiador de feitio difícil, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quental. No século XIX, uma livraria destas era meio loja, meio tertúlia: ficava-se a conversar entre as estantes, a folhear sem comprar, a encomendar livros de Paris que demoravam semanas a chegar. Repara como as salas se sucedem umas às outras, como capítulos de um romance comprido.

    É exatamente isso que te proponho: uma Lisboa feita de papel, de cafés e de escritores de bronze, onde as ruas parecem ter sido escritas antes de serem calcetadas. A primeira personagem nasceu a dois passos daqui. Desce a Rua Serpa Pinto, ao lado da Igreja dos Mártires, até ao largo do teatro de ópera.

  2. 2. Largo de São Carlos: onde nasceu Fernando Pessoa

    Largo de São Carlos 4, 1200 Lisboa, Portugal

    Para no meio do largo e vira as costas ao teatro: no prédio em frente, no número 4, há uma placa que muita gente nem chega a ver. Foi lá em cima, no quarto andar, que nasceu Fernando Pessoa, a 13 de junho de 1888, às três e vinte da tarde... uma hora que ele próprio usaria, anos mais tarde, para traçar o seu horóscopo.

    Treze de junho é o dia de Santo António, o santo mais querido de Lisboa, e por isso o menino se chamou Fernando António. O pai, Joaquim de Seabra Pessoa, era funcionário público e crítico musical do Diário de Notícias, e só tinha de atravessar o largo para ouvir as óperas sobre as quais escrevia. Imagina a criança à janela, a ver chegar as carruagens e os vestidos de gala, com a música a escapar-se pelas portas do teatro.

    A infância tranquila durou pouco. O pai morreu de tuberculose em 1893, quando Fernando tinha cinco anos, e a família teve de deixar este apartamento. A mãe voltou a casar com o cônsul de Portugal em Durban, e em 1896 o rapaz partiu para a África do Sul, onde cresceu a ler e a escrever em inglês. Regressou sozinho a Lisboa em 1905, aos dezassete anos, e nunca mais saiu da cidade.

    Foi batizado na Igreja dos Mártires, por onde passaste há pouco. E conta-se que o sino dessa igreja é o do poema Ó sino da minha aldeia. Um poeta de cidade, sem aldeia nenhuma, a chamar aldeia ao Chiado... não há nada mais Pessoa do que isto.

    Quanto ao teatro, repara na fachada sóbria, quase severa. O Teatro de São Carlos foi construído depressa, depois de o terramoto de 1755 ter destruído a Ópera do Tejo, e abriu em 1793, pago por comerciantes ricos e inspirado no San Carlo de Nápoles. O nome homenageia a princesa Carlota Joaquina. Sobe agora a Rua Serpa Pinto de volta à Rua Garrett e vira à esquerda: o poeta espera-te, sentado à porta de um café.

  3. 3. A Brasileira e a estátua de Pessoa

    Rua Garrett 120, 1200 Lisboa, Portugal

    Senta-te ao lado dele, se a cadeira estiver livre: Fernando Pessoa, em bronze, de chapéu e laço, perna traçada, à mesa da esplanada d'A Brasileira, com uma cadeira vazia à espera de quem quiser a fotografia. A estátua é de Lagoa Henriques e chegou aqui em 1988, no centenário do nascimento do poeta.

    O café abriu em 1905, pela mão de Adriano Telles, um homem que tinha vivido no Brasil e queria vender em Lisboa café brasileiro, em grão e moído. Para convencer os clientes, oferecia uma chávena a quem comprasse. Há até uma lenda que diz que a palavra bica nasceu aqui, das iniciais de um aviso na parede: beba isto com açúcar. Os historiadores torcem o nariz, mas os lisboetas adoram contá-la.

    Agora o paradoxo. Pessoa passava por aqui, e a sua geração também: em 1915, ele, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros lançaram a revista Orpheu, que escandalizou a cidade em apenas dois números. Mas o café preferido do poeta era o Martinho da Arcada, lá em baixo, no Terreiro do Paço. A cidade sentou-o para sempre no café errado... e ele, que se desdobrou em Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e dezenas de outros nomes, talvez achasse graça a mais este disfarce.

    Do outro lado, no Largo do Chiado, repara noutro homem de bronze, sentado, de mão no ar, a meio de uma piada. É António Ribeiro, o Chiado, um frade franciscano do século XVI que trocou o convento pela rua e se tornou poeta satírico, famoso por imitar vozes e troçar de toda a gente. Uma das explicações para o nome do bairro é ele. A outra é mais prosaica: o chiar das rodas das carroças a subir esta encosta. A estátua, de Costa Mota, é de 1925.

    Antes de seguires, olha para o fundo do largo: o homem de espada no pedestal alto é Camões, e vais voltar a ele mais tarde. Por agora, desce a Rua do Alecrim, a rua que escorrega até ao rio. Uns cento e cinquenta metros abaixo, à direita, há um pequeno largo onde um escritor de monóculo se inclina sobre uma mulher quase nua.

  4. 4. Estátua de Eça de Queirós

    Largo do Barão de Quintela, 1200 Lisboa, Portugal

    Não te escandalizes: a mulher de pedra quase nua que vês à frente do monumento é a Verdade, e o senhor de monóculo que se inclina sobre ela é Eça de Queirós. Por cima dela, um véu tão leve que não esconde nada. E gravada na pedra, a frase que serve de chave a toda a obra dele: sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.

    O monumento é do escultor António Teixeira Lopes e foi inaugurado em 1903, três anos depois da morte do escritor. A frase vem de A Relíquia, um romance de 1887 sobre um sobrinho hipócrita que finge devoção para herdar a fortuna de uma tia beata. Resume o método de Eça: dizer a verdade crua sobre Lisboa, mas com tanta graça que ninguém conseguia largar o livro.

    O curioso é que Eça escreveu grande parte da sua Lisboa à distância. Era diplomata: foi cônsul em Havana, em Newcastle, em Bristol e, por fim, em Paris, onde morreu em 1900. Os Maias, o grande romance sobre a decadência de uma família lisboeta, saiu em 1888, o mesmo ano em que Pessoa nasceu ali atrás, no Largo de São Carlos. Duas gerações de literatura separadas por duzentos metros e por um ano de calendário.

    E o final de Os Maias é uma lição muito lisboeta. Depois de páginas a jurar que nada na vida vale a pena, que não se deve correr para coisa nenhuma, Carlos da Maia e o amigo Ega veem passar o americano, o carro puxado por cavalos, e desatam a correr atrás dele. Ainda o apanhamos, gritam. Toda a ironia de Eça cabe nessa corrida desajeitada.

    Mas Eça também tinha um lado de combate. Em 1871, ao lado de Antero de Quental, subiu a um palco no Chiado para defender o realismo na literatura, e o governo acabou por mandar fechar a sala. Vais passar por esse largo mais adiante. Agora segue para poente, por ruas estreitas que sobem e descem, uns quatrocentos metros até ao Alto de Santa Catarina, onde um gigante de pedra vigia o rio.

  5. 5. Miradouro de Santa Catarina e o Adamastor

    Rua de Santa Catarina, 1200 Lisboa, Portugal

    Chega-te ao parapeito e deixa o rio encher-te os olhos: o Tejo largo, a ponte vermelha à direita, os guindastes do porto, a margem sul ao fundo. E atrás de ti, a sair de um rochedo, uma criatura enorme de pedra, de cara zangada, meio homem, meio montanha. É o Adamastor, e há lisboetas que chamam a este miradouro simplesmente o Adamastor.

    O gigante não nasceu numa pedreira, nasceu num poema. No canto quinto de Os Lusíadas, publicados por Luís de Camões em 1572, a frota de Vasco da Gama aproxima-se do Cabo da Boa Esperança e, de repente, uma nuvem negra cobre o céu. Dela sai o Adamastor, o próprio cabo feito gigante, que ameaça os marinheiros e lhes profetiza naufrágios e mortes por terem ousado passar.

    Mas Camões dá-lhe uma alma. O gigante confessa que se apaixonou pela ninfa Tétis, que o enganou, e que por castigo foi transformado em rocha, preso para sempre na ponta de África. Um monstro de coração partido, a chorar um amor impossível... há coisa mais portuguesa do que isto? A escultura, de Júlio Vaz Júnior, foi posta aqui em 1927.

    E este miradouro tem um segundo escritor. Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de 1984, José Saramago traz de volta a Lisboa um dos heterónimos de Pessoa, logo a seguir à morte do poeta, em 1935. Ricardo Reis sobe muitas vezes a este alto, onde dois velhos sentados num banco olham os navios e comentam as notícias. Saramago, Nobel da Literatura em 1998, fez de Santa Catarina o sítio onde a ficção de um escritor vem visitar a de outro.

    A ponte que vês foi inaugurada em 1966 com o nome do ditador, Ponte Salazar, e só depois do 25 de Abril de 1974 passou a chamar-se Ponte 25 de Abril. Há cidades que mudam de pele; Lisboa muda de nomes. Agora volta-te para norte, sobe até à Calçada do Combro e entra na Rua de O Século, a rua onde se faziam os jornais.

  6. 6. Rua de O Século: jornais e o berço de Pombal

    Rua de O Século 51, 1200 Lisboa, Portugal

    Caminha devagar por esta rua comprida e um pouco austera, até ao largo em meia-lua com um chafariz, e repara nos palácios de um lado e do outro. Num deles funciona hoje um ministério. Durante quase cem anos, saía dali, todas as madrugadas, um dos jornais mais lidos do país: O Século. A rua acabou por lhe herdar o nome.

    Antes disso, esta era a Rua Formosa, e foi aqui, na casa da família Carvalho, que nasceu em 1699 Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal. O homem que reconstruiu Lisboa depois do terramoto, que expulsou os jesuítas e que governou o reino com mão de ferro, começou a vida nesta calçada. Quando O Século se instalou, em 1880, chegou a ocupar parte da casa onde o marquês nascera.

    No século XIX, todo o Bairro Alto à tua volta virou bairro de jornais. Havia tipografias nos rés-do-chão, redações nos andares de cima e ardinas, os miúdos que vendiam os jornais, a correr pelas ruas aos gritos com as manchetes. O Diário de Notícias, fundado em 1864, nasceu numa rua aqui perto que hoje tem o nome dele.

    E foi no Diário de Notícias que, em 1870, dois jovens, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, publicaram em cartas anónimas uma história de rapto e mistério numa estrada de Sintra. Conta-se que houve leitores convencidos de que era tudo verdade. Assim nasceu O Mistério da Estrada de Sintra, muitas vezes apontado como o primeiro romance policial português... estreado nas páginas de um jornal deste bairro.

    Os jornais também conheceram a censura. Durante o Estado Novo, cada página passava pelo lápis azul dos censores antes de ir para as máquinas. O Século fechou em 1977, já depois da revolução, e muitas tipografias do bairro deram lugar a bares e casas de fado. Atravessa agora o Bairro Alto para nascente, pela sua grelha de ruas do século XVI, e desce até à praça onde Camões te espera.

  7. 7. Largo de Camões

    Praça Luís de Camões, 1200 Lisboa, Portugal

    Para no centro da praça, entre os pombos e os elétricos amarelos que fazem a curva, e levanta os olhos: lá em cima, num pedestal altíssimo, Luís de Camões, de espada à cinta, olha por cima de toda a gente. À volta dele, mais abaixo, oito figuras mais pequenas fazem-lhe companhia: cronistas, poetas e até um matemático, Pedro Nunes.

    A vida de Camões parece um romance de aventuras. Nasceu por volta de 1524, terá perdido um olho a combater no Norte de África, esteve preso em Lisboa depois de uma rixa de rua e partiu para o Oriente, onde passou anos entre guerras, prisões e dívidas. Diz a lenda que, num naufrágio na foz do rio Mekong, nadou até à margem com um braço fora de água, a segurar o manuscrito de Os Lusíadas.

    Voltou pobre, publicou o poema em 1572 e recebeu do rei uma pensão modesta. Morreu a 10 de junho de 1580, no ano em que Portugal perdeu a independência para Filipe II de Espanha, e diz-se que escreveu que morria com a pátria. Em 1880, no tricentenário, ossadas tidas como suas foram levadas para os Jerónimos, mas ninguém pode garantir que sejam mesmo dele.

    O dia da morte dele é hoje feriado nacional, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Durante o Estado Novo também se chamava Dia da Raça, e o regime usava Camões como estandarte de um império que queria eterno. Depois do 25 de Abril, o poeta foi devolvido a quem o lê. A estátua, de Víctor Bastos, foi inaugurada em 1867, e desde então é aqui que muita gente marca encontro, sem pensar em quem está lá em cima.

    Repara que estás exatamente na fronteira: para trás fica o Chiado elegante das livrarias, para a frente o Bairro Alto boémio dos jornais e das tabernas. Camões, que conheceu as duas vidas, ficou no meio. Agora segue para nordeste, pelas ruas da Trindade, até um largo pequeno com uma fachada coberta de azulejos coloridos. Foi aí que, em 1871, o governo mandou calar uma geração inteira.

  8. 8. Largo Rafael Bordalo Pinheiro: as Conferências do Casino

    Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 1200 Lisboa, Portugal

    Procura a fachada que parece um livro ilustrado: um prédio todo coberto de azulejos, com grandes figuras alegóricas de mulheres a representar as artes, o trabalho e os elementos. É obra de Luís Ferreira, conhecido como o Ferreira das Tabuletas, um pintor de azulejos que decorou este prédio nos anos 1860.

    Nessa época, o largo chamava-se Largo da Abegoaria, e numa das suas salas funcionava o Casino Lisbonense. Na primavera de 1871, um grupo de jovens escritores e pensadores, com Antero de Quental à cabeça, alugou a sala para uma série de conferências sobre o estado do país. Ficaram conhecidas como as Conferências do Casino, e aquela geração passou à história como a Geração de 70.

    Antero abriu o fogo com as causas da decadência dos povos peninsulares, e apontou o dedo ao catolicismo da Contrarreforma, ao absolutismo e às conquistas que tinham enriquecido poucos e empobrecido o resto. Eça de Queirós veio defender o realismo: uma literatura que olhasse para a sociedade tal como ela era, sem enfeites nem heróis de papelão. A Lisboa bem-pensante nunca tinha ouvido nada assim dito em voz alta.

    Não durou muito. No fim de junho de 1871, antes da conferência seguinte, o governo mandou encerrar a sala, acusando os oradores de atacar a religião e as instituições do Estado. Os escritores protestaram, mas as portas ficaram fechadas. Ironicamente, a proibição foi a melhor publicidade que a Geração de 70 podia ter tido: o país inteiro ficou a saber o nome deles.

    O nome atual do largo homenageia Rafael Bordalo Pinheiro, caricaturista e ceramista, que em 1875 inventou o Zé Povinho, o homem do povo que responde aos poderosos com um manguito. Um gesto que, convenhamos, assenta bem neste largo. Segue agora para noroeste até ao Largo Trindade Coelho, onde uma igreja de fachada simples esconde a capela mais cara de Lisboa.

  9. 9. Igreja de São Roque e a Capela de São João Batista

    Largo Trindade Coelho, 1200 Lisboa, Portugal

    Não te deixes enganar pela fachada lisa, quase aborrecida: entra na Igreja de São Roque, levanta os olhos para o teto de madeira pintada e depois procura, do lado esquerdo, junto ao altar-mor, a capela que brilha mais do que todas as outras. É a Capela de São João Batista, e há quem diga que é a capela mais cara da Europa.

    Foi encomendada pelo rei D. João V e construída não aqui, mas em Roma, nos anos 1740, por arquitetos ao serviço do papa. Depois de abençoada pelo papa Bento XIV, foi desmontada peça a peça, metida em caixotes e trazida de barco para Lisboa. Lápis-lazúli, ametista, mármores de muitas cores, bronze dourado... e os quadros, que parecem pinturas, são afinal mosaicos de pedras minúsculas.

    Repara no preço verdadeiro de tanto brilho. O ouro que pagou estas extravagâncias veio sobretudo das minas do Brasil, onde o trabalho duro era feito por africanos escravizados. A beleza desta capela tem uma conta que não aparece na placa.

    E a literatura? Esta igreja era a casa dos jesuítas em Lisboa, a ordem do padre António Vieira, o pregador do século XVII que Pessoa, no livro Mensagem, chamou Imperador da língua portuguesa. Os sermões de Vieira, cheios de imagens ousadas e de ironia, ainda hoje se leem nas escolas. Em 1759, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do reino, e a igreja acabou entregue à Santa Casa da Misericórdia, a quem ainda pertence.

    À saída, repara no largo à frente: um vendedor de lotaria em bronze, de cautelas na mão, lembra que a Santa Casa também gere os jogos que tantos lisboetas sonham ganhar. A Misericórdia de Lisboa foi fundada em 1498, pela rainha D. Leonor, para cuidar de doentes, presos e órfãos, e cinco séculos depois continua a fazê-lo. Agora segue para norte pela Rua de São Pedro de Alcântara. Em dois minutos chegas ao jardim que é a melhor varanda sobre a Baixa.

  10. 10. Miradouro de São Pedro de Alcântara

    Rua de São Pedro de Alcântara, 1200 Lisboa, Portugal

    Encosta-te à balaustrada e deixa a cidade abrir-se à tua frente: lá em baixo a Baixa e os Restauradores, do outro lado do vale o Castelo de São Jorge, a Graça e a Senhora do Monte, com os telhados a descer em cascata. Este jardim em dois patamares é uma das varandas preferidas dos lisboetas ao fim da tarde.

    Procura o monumento ao lado do jardim: Eduardo Coelho, o fundador do Diário de Notícias, e aos pés dele um ardina, um rapazinho com os jornais debaixo do braço, a apregoar as notícias. O Diário de Notícias nasceu para ser barato e popular, um jornal para toda a gente, e foram estes miúdos que o levaram a cada esquina. É uma das raras estátuas de Lisboa dedicadas não a quem escrevia os jornais, mas a quem os vendia na rua, descalço, à chuva, por meia dúzia de réis.

    Ao lado do miradouro chega o Ascensor da Glória, o funicular que desde 1885 sobe a calçada a partir dos Restauradores. A 3 de setembro de 2025, uma das carruagens descarrilou e embateu num prédio da Calçada da Glória; morreram dezasseis pessoas. Foi um dos dias mais tristes da Lisboa recente, e é justo lembrá-lo aqui, no topo da calçada.

    Agora uma curiosidade para quem gosta de livros. Por volta de 1925, Fernando Pessoa escreveu em inglês um guia da cidade para estrangeiros, Lisbon: What the Tourist Should See. Ficou esquecido entre os papéis da famosa arca do poeta, com mais de vinte e cinco mil folhas, e só foi publicado em 1992. O poeta mais misterioso de Portugal também quis ser guia turístico... imagina o que diria de quem hoje sobe estas ruas com auscultadores.

    Último troço: segue pela Rua Dom Pedro V, sempre a direito, para noroeste, entre antiquários e palacetes. São uns quatrocentos metros, quase planos, até um jardim com uma árvore que parece um guarda-chuva gigante.

  11. 11. Praça do Príncipe Real

    Praça do Príncipe Real, 1250 Lisboa, Portugal

    Entra no jardim e procura o centro: uma árvore enorme, de ramos estendidos na horizontal sobre uma estrutura de ferro, faz uma sombra redonda onde os mais velhos jogam às cartas e os leitores se esquecem das horas. É um cedro-do-buçaco, com uma copa de mais de vinte metros, e talvez a sala de leitura mais bonita de Lisboa.

    Este alto já foi um estaleiro de sonhos falhados. Depois do terramoto de 1755, começou-se aqui a construir uma nova sé patriarcal, mas o edifício provisório ardeu e o projeto foi abandonado. Durante décadas, os lisboetas chamaram ao sítio Patriarcal Queimada. Debaixo dos teus pés esconde-se ainda o Reservatório da Patriarcal, uma cisterna octogonal do século XIX que guardava água para a cidade.

    Olha agora para os palacetes à volta. O mais extravagante, com arcos e rendilhados de inspiração mourisca, é o Palacete Ribeiro da Cunha, do fim do século XIX. Foi aqui que se instalou a burguesia endinheirada do liberalismo, gente que lia o jornal de manhã, ia ao São Carlos à noite e comprava livros na Bertrand... precisamente as personagens que Eça adorava pôr a ridículo nos seus romances.

    Até o nome da praça conta a história do país. Homenageava um príncipe herdeiro da casa real, e depois da implantação da República, em 1910, passou a chamar-se Praça do Rio de Janeiro. Mas os lisboetas continuaram a dizer Príncipe Real, e o nome antigo acabou por regressar. As cidades, tal como os poetas, também têm heterónimos.

    E assim chegas ao fim do caminho. Começaste na livraria mais antiga do mundo, passaste pela janela onde nasceu Pessoa, pelo gigante de Camões, pelas conferências caladas da Geração de 70 e pelos jornais do Bairro Alto. Senta-te num banco à sombra e abre um livro, qualquer um serve. Em Lisboa, os escritores nunca andam longe; às vezes estão em bronze, numa esplanada, à espera de que alguém se sente ao lado deles.