Miradouro de Santa Catarina e o Adamastor

Why is it significant?

Chega-te ao parapeito e deixa o rio encher-te os olhos: o Tejo largo, a ponte vermelha à direita, os guindastes do porto, a margem sul ao fundo. E atrás de ti, a sair de um rochedo, uma criatura enorme de pedra, de cara zangada, meio homem, meio montanha.

Key Facts

PlaceMiradouro de Santa Catarina e o Adamastor
AddressRua de Santa Catarina, 1200 Lisboa, Portugal
Geo Coordinates38.70950, -9.14770
Part of WalkA Lisboa de Pessoa: Chiado e Bairro Alto, de livro em livro
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Chega-te ao parapeito e deixa o rio encher-te os olhos: o Tejo largo, a ponte vermelha à direita, os guindastes do porto, a margem sul ao fundo. E atrás de ti, a sair de um rochedo, uma criatura enorme de pedra, de cara zangada, meio homem, meio montanha. É o Adamastor, e há lisboetas que chamam a este miradouro simplesmente o Adamastor.

O gigante não nasceu numa pedreira, nasceu num poema. No canto quinto de Os Lusíadas, publicados por Luís de Camões em 1572, a frota de Vasco da Gama aproxima-se do Cabo da Boa Esperança e, de repente, uma nuvem negra cobre o céu. Dela sai o Adamastor, o próprio cabo feito gigante, que ameaça os marinheiros e lhes profetiza naufrágios e mortes por terem ousado passar.

Mas Camões dá-lhe uma alma. O gigante confessa que se apaixonou pela ninfa Tétis, que o enganou, e que por castigo foi transformado em rocha, preso para sempre na ponta de África. Um monstro de coração partido, a chorar um amor impossível... há coisa mais portuguesa do que isto? A escultura, de Júlio Vaz Júnior, foi posta aqui em 1927.

E este miradouro tem um segundo escritor. Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de 1984, José Saramago traz de volta a Lisboa um dos heterónimos de Pessoa, logo a seguir à morte do poeta, em 1935. Ricardo Reis sobe muitas vezes a este alto, onde dois velhos sentados num banco olham os navios e comentam as notícias. Saramago, Nobel da Literatura em 1998, fez de Santa Catarina o sítio onde a ficção de um escritor vem visitar a de outro.

A ponte que vês foi inaugurada em 1966 com o nome do ditador, Ponte Salazar, e só depois do 25 de Abril de 1974 passou a chamar-se Ponte 25 de Abril. Há cidades que mudam de pele; Lisboa muda de nomes. Agora volta-te para norte, sobe até à Calçada do Combro e entra na Rua de O Século, a rua onde se faziam os jornais.

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