Granito, Azulejo e Revolução: da Estação de São Bento ao Coração de D. Pedro no Porto
Uma prova de arquitetura pela Baixa do Porto: os azulejos de São Bento e de Santo Ildefonso, o Majestic, o Bolhão renascido, a Avenida dos Aliados, a Câmara e a igreja que guarda o coração de um rei
Porto · 11 stops · 25 min audio · Generated
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1. Estação de São Bento: Vinte Mil Azulejos
Praça de Almeida Garrett, 4000-069 Porto, Portugal
Entra no átrio e deixa os olhos subirem pelas paredes. Cerca de vinte mil azulejos azuis e brancos cobrem tudo, do rodapé quase até ao teto, e contam a história de Portugal como uma banda desenhada gigante. À tua volta há gente a correr para o comboio de Guimarães ou de Aveiro, de mochila às costas, e quase ninguém olha para cima. Tu olha.
Este sítio nem sempre foi uma estação. Aqui erguia-se o Convento de São Bento de Avé-Maria, de freiras beneditinas, e quando o caminho de ferro quis chegar ao coração da cidade havia um problema delicado. Conta-se que foi preciso esperar pela morte da última freira para deitar o convento abaixo. O santo ficou no nome, e é por isso que uma estação de comboios se chama como um mosteiro.
O edifício é do arquiteto portuense José Marques da Silva, que estudou em Paris e trouxe de lá o gosto pelas mansardas, pelo relógio na fachada e pelo granito tratado como pedra de grande boulevard. O rei D. Carlos lançou a primeira pedra em 1900, mas a estação só foi inaugurada em 1916, já em plena República. O rei nunca a viu acabada... tinha sido assassinado em Lisboa em 1908.
Os azulejos são de Jorge Colaço, pintados entre 1905 e 1916, e há um pormenor que pouca gente conhece: Colaço nasceu em Tânger, em Marrocos, filho de um diplomata português. Foi um homem nascido do outro lado do mar que pintou a epopeia portuguesa nestas paredes. Procura o painel da entrada de D. João I e de D. Filipa de Lencastre no Porto, em 1387, para o casamento celebrado na Sé, e o da conquista de Ceuta, em 1415. Lá no alto, uma faixa colorida conta a evolução dos transportes, dos carros de bois até ao comboio a vapor... a estação a contar a sua própria história.
Repara ainda como o azul muda com a luz: de manhã é frio, quase cinzento, ao fim da tarde fica quente como tinta fresca. Vais reencontrar este azul ao longo de todo o passeio, porque o Porto do século XX apaixonou-se pelo azulejo. Agora sai, contorna a estação pelo lado da Rua da Madeira, a rampa estreita encostada às suas paredes, e sobe até à Praça da Batalha. É curta mas é a sério... o Porto avisa logo à primeira paragem.
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2. Praça da Batalha e Teatro Nacional São João
Praça da Batalha, 4000-102 Porto, Portugal
Recupera o fôlego no alto da rampa. À tua frente abre-se a Praça da Batalha, inclinada como quase tudo nesta cidade, com a estátua de D. Pedro V ao centro e, no lado sul, um edifício de colunas e frontão que parece um templo antigo pousado no granito: o Teatro Nacional São João.
O nome da praça vem de uma lenda. Diz-se que, no final do século X, aqui se travou uma batalha feroz entre os habitantes do burgo e as tropas muçulmanas de Almançor, que varriam o norte da península. Nenhum documento o prova com segurança, mas o nome agarrou-se ao lugar e nunca mais o largou. Estás, aliás, mesmo à saída da antiga muralha: a Porta de Cima de Vila ficava aqui ao lado, e esta praça era a primeira coisa que via quem chegava do interior.
O primeiro teatro deste sítio abriu em 1798 e chamava-se Real Teatro de São João, em honra do príncipe que viria a ser D. João VI. Durante mais de cem anos foi a sala da burguesia portuense, com ópera italiana, bailes de máscaras e intrigas sussurradas nos camarotes. Em 1908, um incêndio deixou-o reduzido a paredes queimadas. Foi o mesmo ano em que o rei morreu em Lisboa... um ano mau para os reis e para os teatros.
Quem o reconstruiu? Marques da Silva, outra vez, o arquiteto da estação de onde acabaste de sair. O novo São João abriu em 1920, clássico e solene por fora, com veludo, dourados e plateia em ferradura por dentro. Hoje é um dos três teatros nacionais do país, e o único fora de Lisboa. Repara nos relevos da fachada: o Porto quis que o seu teatro tivesse a dignidade de um palácio, e conseguiu.
Antes de saíres, olha para o outro lado da praça, para o Cinema Batalha, de 1947, com a sua fachada modernista. Lá dentro, o pintor Júlio Pomar fez frescos que a censura do Estado Novo mandou tapar pouco depois de estarem prontos. A arte também se esconde debaixo da tinta. Agora atravessa a praça para norte, até à igreja de duas torres e fachada azul no cimo da escadaria: Santo Ildefonso.
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3. Igreja de Santo Ildefonso: a Fachada que Engana
Rua de Santo Ildefonso, 4000-542 Porto, Portugal
Sobe os degraus de granito e para no adro. Duas torres sineiras emolduram uma fachada inteiramente vestida de azulejos azuis e brancos, e ao sol da tarde a igreja parece embrulhada numa toalha de renda. Por baixo de ti, a Rua de 31 de Janeiro desce a pique em direção a São Bento.
A igreja é barroca, do início do século XVIII, consagrada em 1739, e substituiu uma pequena capela medieval que ficava fora das muralhas. Santo Ildefonso foi um arcebispo de Toledo do século VII, e a lenda diz que a própria Virgem lhe apareceu para lhe oferecer uma casula, a veste que o padre usa na missa. É essa cena que vais encontrar nos painéis.
E agora a surpresa. Estes azulejos, que parecem ter trezentos anos, foram assentes em 1932. São de Jorge Colaço, o mesmo de São Bento: perto de onze mil peças com cenas da vida do santo e alegorias da Eucaristia. O século XX imitou o século XVIII com tanto talento que hoje quase toda a gente se engana. Muitas das fachadas azuis mais fotografadas do Porto são mais novas do que os teus bisavós.
Esta escadaria guarda também uma memória dura. Na madrugada de 31 de janeiro de 1891, soldados revoltosos subiram a rua lá de baixo a gritar pela República, na primeira tentativa de derrubar a monarquia em Portugal. Aqui em cima, junto à igreja, esperava-os a Guarda Municipal. Abriu fogo, houve mortos na calçada, e a revolta acabou nessa mesma manhã. A rua chamava-se de Santo António; depois de 1910 mudou de nome para guardar a data.
Respira, que agora a cidade muda de humor. Ao lado da igreja começa a Rua de Santa Catarina, pedonal, cheia de gente, de montras e de músicos de rua. Sobe-a uns cem metros e procura, à tua direita, uma fachada creme e dourada com um nome escrito em letras elegantes.
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4. Rua de Santa Catarina e Café Majestic
Rua de Santa Catarina 112, 4000-442 Porto, Portugal
Abranda em frente à fachada creme, com janelas em arco, figuras esculpidas e a palavra Majestic lá no alto. Espreita pelo vidro: espelhos de moldura talhada, candeeiros de globo, cadeiras de couro, mesas de mármore e empregados de laço. Parece que alguém parou o relógio nos anos vinte e se esqueceu de lhe voltar a dar corda.
O café abriu em 1921 com outro nome, Elite, e pouco depois passou a chamar-se Majestic, mais ao gosto da moda parisiense da época. O projeto é do arquiteto João Queiroz, e é Arte Nova tardia, numa altura em que Paris já andava por outros caminhos. Aqui reuniam-se escritores, artistas, estudantes e famílias da burguesia, e as conversas atravessavam a tarde inteira sem que ninguém tivesse pressa de pedir a conta.
Mas os cafés também envelhecem. Com o passar das décadas o Majestic foi perdendo clientes, os espelhos ficaram baços, e chegou a estar à beira de fechar. Foi um restauro cuidadoso, com reabertura em 1994, que lhe devolveu o brilho. Quando entrares, lembra-te de que tudo isto esteve muito perto de desaparecer.
Há quem jure que J. K. Rowling, que viveu no Porto no início dos anos noventa a ensinar inglês, escrevia aqui as primeiras páginas de Harry Potter. Ninguém o consegue provar, e a cidade preferiu ficar com a lenda. Mais certa é outra história, uns passos acima, no Grande Hotel do Porto, aberto em 1880: foi lá que morreu, em dezembro de 1889, a imperatriz Teresa Cristina do Brasil, poucas semanas depois de a monarquia brasileira cair e de a família imperial partir para o exílio. Era nora de D. Pedro IV... guarda este nome, que ele espera por ti no fim do passeio.
A Rua de Santa Catarina é há mais de um século a grande rua comercial do Porto, e foi buscar o nome à capela que vais ver lá em cima. Segue para norte, passa o hotel, cruza a Rua de Passos Manuel e a Rua Formosa, e procura uma esquina toda azul.
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5. Capela das Almas: uma Igreja Embrulhada em Azul
Rua de Santa Catarina 428, 4000-124 Porto, Portugal
Para na esquina e afasta-te uns passos para caber tudo no olhar. A Capela das Almas está forrada de azulejos azuis e brancos na fachada e na parede lateral, como se alguém a tivesse embrulhado num lenço de louça. Ao lado passam autocarros, carrinhas de entregas e gente com sacos de compras, e a capela continua ali, serena, a fazer de postal.
Tem dois nomes, e ambos são verdadeiros. Oficialmente é a Capela de Santa Catarina, a santa que deu o nome à rua. Mas o povo chama-lhe Capela das Almas, por causa da devoção às almas do Purgatório, por quem aqui se rezava e se mandavam dizer missas. O edifício é do século XVIII, sóbrio, quase modesto. O que o transformou foi o que veio depois.
Em 1929, o pintor Eduardo Leite cobriu as paredes exteriores com cerca de dezasseis mil azulejos. Na parede lateral, ao longo da Rua de Fernandes Tomás, há cenas da morte de São Francisco de Assis e do martírio de Santa Catarina de Alexandria, a jovem que, diz a tradição, foi condenada à roda dentada e acabou decapitada. Os painéis têm a escala de um filme panorâmico, e lê-los de uma ponta à outra é uma pequena procissão a pé.
Repara num pormenor que é também uma lição de arquitetura. Aqui, o azulejo não é enfeite pendurado: é pele. Protege a parede da humidade atlântica, lava-se com a chuva e devolve luz a uma rua estreita. Foi por isso que o Porto se cobriu de azulejo entre o século XIX e o início do século XX, e esta capela é talvez o exemplo mais teatral dessa paixão, pintado poucos anos antes da fachada de Santo Ildefonso.
Agora desce a Rua de Fernandes Tomás para poente, ao longo dos painéis, e fica atento ao nome da rua: vais ouvi-lo outra vez, numa praça onde começou uma revolução. Ao fim de uns cem metros, à tua esquerda, vais sentir o cheiro antes de veres a porta: peixe, flores, fruta, café. É o Bolhão.
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6. Mercado do Bolhão e A Pérola do Bolhão
Rua Formosa, 4000-214 Porto, Portugal
Entra no mercado e procura uma das galerias de cima, para veres tudo de uma vez. Lá em baixo, o pátio aberto com bancas de peixe, de flores, de legumes e de enchidos; à tua volta, varandas de ferro pintado, escadarias de granito e lojas viradas para a rua. Ouve as vendedeiras a chamar os fregueses... é a banda sonora mais antiga do Porto.
O nome é uma pista. Bolhão vem de bolha: o terreno era um campo alagadiço, atravessado por um ribeiro, onde a água brotava do chão. A Câmara comprou-o no século XIX para fazer um mercado, e o edifício que vês é de 1914, projeto do arquiteto António Correia da Silva. Guarda esse nome, porque daqui a pouco vais vê-lo outra vez, numa obra bem maior.
Durante décadas o Bolhão foi morrendo devagar: o ferro enferrujava, o telhado deixava passar a chuva, e cada inverno parecia o último. Fechou para obras em 2018, os comerciantes mudaram-se para um mercado provisório, e houve quem jurasse que nunca mais voltariam. Voltaram. O mercado restaurado reabriu em setembro de 2022, com as mesmas pedras, o mesmo ferro e muitas das mesmas vozes.
Antes de seguires, sai pela Rua Formosa e olha para o passeio em frente. A Pérola do Bolhão, mercearia fina aberta em 1917, tem uma das fachadas Arte Nova mais bonitas da cidade, com azulejos, ferro trabalhado e letras pintadas. Lá dentro há frutos secos, queijos, chouriços e garrafas alinhadas como soldados numa parada. Várias gerações de portuenses vieram aqui comprar o Natal.
Repara ainda como o mercado ocupa um quarteirão inteiro e como as lojas do rés do chão vivem viradas para a rua, independentes do pátio. É um edifício com duas caras, uma para dentro e outra para fora. Agora segue pela Rua Formosa para poente, desce a Rua de Sá da Bandeira e vira à direita na Rua de Passos Manuel. Passas pelo Rivoli, teatro de linhas Art Déco, desces pela avenida e chegas à Praça da Liberdade, aos pés de um rei a cavalo.
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7. Praça da Liberdade e a Estátua de D. Pedro IV
Praça da Liberdade, 4000-322 Porto, Portugal
Para junto ao pedestal e olha para cima. Um rei de bronze, a cavalo, segura na mão um papel... não é um mapa nem uma espada, é a Carta Constitucional. Atrás dele, a avenida sobe larga até à torre da Câmara; à frente, o casario desce em direção ao rio. À volta, prédios de bancos, hotéis e cafés olham todos para ele, como uma plateia que nunca se levanta.
Esta praça chamou-se durante muito tempo Praça Nova, porque nasceu fora da muralha medieval, quando a cidade começou a transbordar. O nome atual não é decoração. Em 1829, no tempo do absolutismo de D. Miguel, foram aqui enforcados liberais que tinham conspirado contra o regime. O Porto chamou-lhes mártires da liberdade, e nunca os esqueceu.
Três anos depois chegou D. Pedro. Tinha sido imperador do Brasil, onde é D. Pedro I, e voltou para defender o trono da filha, D. Maria II, contra o irmão, D. Miguel. Desembarcou a norte do Porto em julho de 1832 com cerca de sete mil e quinhentos homens, entrou na cidade, e logo a viu cercada pelo exército absolutista. Foi mais de um ano de bombardeamentos, fome e cólera. O Porto aguentou, e foi dessa resistência que nasceu o título de cidade Invicta.
A estátua é obra do escultor francês Anatole Calmels e foi inaugurada em 1866. Repara no movimento contido do cavalo e no rosto do rei, sereno, quase cansado. D. Pedro morreu em 1834, com apenas trinta e cinco anos, poucos meses depois de vencer a guerra. No testamento deixou um pedido que ainda hoje arrepia: queria que o coração ficasse no Porto, a cidade que o tinha defendido.
Esse coração existe, e vais encontrá-lo no fim do passeio. Por agora, vira as costas ao rio e começa a subir pelo passeio central da Avenida dos Aliados, entre os bancos de granito, em direção à torre do relógio.
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8. Avenida dos Aliados: a Sala de Estar do Porto
Avenida dos Aliados, 4000-064 Porto, Portugal
Para a meio da avenida e roda devagar sobre ti mesmo. De cada lado, prédios de granito com cúpulas, mansardas, frontões e varandas, como se um pedaço de Paris tivesse sido talhado em pedra do Norte. Ao fundo, a Câmara fecha a perspetiva; atrás de ti, D. Pedro guarda a outra ponta.
Há pouco mais de cem anos, nada disto existia. Aqui havia ruas estreitas, quintais e casas antigas, o chamado Bairro do Laranjal. A partir de 1916 tudo foi demolido para abrir uma avenida moderna, segundo um plano em que participou o urbanista inglês Barry Parker, conhecido pelas cidades-jardim. O nome também é dessa época: Aliados, em homenagem aos países ao lado de quem Portugal combateu na Primeira Guerra Mundial, na qual entrou nesse mesmo ano de 1916.
Os edifícios foram subindo ao longo das décadas de vinte, trinta e quarenta, e muitos eram sedes de bancos, seguradoras e jornais. Quem tinha dinheiro no Porto queria uma morada aqui. Repara como os prédios conversam entre si: alturas parecidas, granito claro, remates em cúpula ou em ardósia escura. É um conjunto quase disciplinado demais para uma cidade tão rebelde. E repara, mais acima, na estátua de bronze de uma rapariga a quem os portuenses chamam simplesmente a Menina Nua.
Nem toda a gente gosta do aspeto que a avenida tem hoje. Com as obras do metro, foi redesenhada por Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura, os dois arquitetos portuenses premiados com o Pritzker, e reinaugurada em 2006. Os canteiros floridos desapareceram e deram lugar a um grande tapete de granito, e a cidade dividiu-se: uns viram elegância, outros um deserto de pedra. A discussão ainda aparece em qualquer conversa de café.
Uma coisa ninguém discute: esta é a sala de estar do Porto. É aqui que se recebe o Ano Novo, que se festejam os campeonatos do FC Porto e que se fazem as grandes manifestações. Continua a subir até ao topo, até aos pés da torre.
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9. Câmara Municipal do Porto
Praça do General Humberto Delgado, 4049-001 Porto, Portugal
Chegaste ao topo da avenida. À tua frente ergue-se o edifício da Câmara Municipal: granito maciço, varandas, figuras de pedra e, ao centro, uma torre de relógio com cerca de setenta metros que se vê de quase toda a Baixa. Diante dela, em bronze, está Almeida Garrett, escritor e filho da cidade, como quem prepara um discurso.
O projeto é do arquiteto António Correia da Silva, o mesmo do Mercado do Bolhão. A obra começou em 1920 e arrastou-se durante mais de três décadas, entre falta de dinheiro, mudanças de gosto e revisões do projeto. O edifício só ficou pronto nos anos cinquenta. É um palácio desenhado numa época e acabado noutra, e isso nota-se.
Repara na mistura. Os telhados inclinados e a torre lembram as casas senhoriais do Norte, mas as linhas direitas e as figuras de pedra já têm a solenidade dos anos trinta e quarenta. É uma Câmara que quis parecer antiga e moderna ao mesmo tempo, num granito que custou anos a talhar. Lá dentro, salões de mármore e escadarias nobres serviram para receber chefes de Estado, artistas e, claro, campeões.
A praça em frente chama-se General Humberto Delgado, e o nome tem peso. Em maio de 1958, Delgado, candidato da oposição contra o regime de Salazar, veio ao Porto e foi recebido por uma multidão imensa que encheu as ruas da Baixa. Dias antes, um jornalista perguntara-lhe o que faria a Salazar se ganhasse, e ele respondera: obviamente, demito-o. Perdeu umas eleições marcadas pela fraude e foi assassinado pela polícia política em 1965.
Agora deixa a Câmara para trás e segue para norte, uns quinhentos metros sempre a subir com suavidade, pelas ruas de prédios burgueses, até uma grande praça arborizada com um velho quartel ao fundo. É a Praça da República, e foi lá que o Porto começou duas revoluções.
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10. Praça da República: o Campo de Santo Ovídio
Praça da República, 4050-497 Porto, Portugal
Entra no jardim da praça e procura sombra debaixo das árvores. À volta há casas burguesas de dois e três andares, com azulejo e ferro forjado, e no lado norte um edifício comprido, de fachada militar: o velho quartel de Santo Ovídio. A praça parece tranquila, quase de bairro, mas foi aqui que o Porto começou duas revoluções.
Durante séculos isto foi o Campo de Santo Ovídio, um descampado à saída da cidade, onde se faziam feiras e onde a tropa fazia exercício. A 24 de agosto de 1820, foi daqui que partiu o pronunciamento militar que deu início à revolução liberal, a que acabaria com o absolutismo e daria a Portugal a sua primeira Constituição. Um dos cabecilhas era o magistrado Manuel Fernandes Tomás... sim, o da rua por onde desceste há pouco, ao longo dos azulejos.
Setenta anos depois, a história repetiu-se com outro sonho. Na madrugada de 31 de janeiro de 1891, soldados reunidos neste campo saíram para proclamar a República. Desceram até à Praça de D. Pedro, a atual Praça da Liberdade, anunciaram o novo regime da varanda da antiga Câmara e subiram a rua que levava a Santo Ildefonso... onde a Guarda Municipal os esperava. Lembras-te daquela escadaria? Foi lá que tudo acabou.
O nome República só chegou depois de 1910, quando o regime finalmente venceu em Lisboa. E repara como a praça conta essa passagem com pedra e com árvores: o quartel de simetria rígida, as casas oitocentistas com fachadas de azulejo, e o jardim que transformou o antigo campo de manobras num lugar de bancos e de avós com netos. O Porto tem esta mania de pôr flores onde antes havia pólvora.
Falta a última paragem, e é a mais íntima. Sai pelo lado norte da praça e segue pela Rua da Lapa, a subir, uns trezentos metros, até à igreja de fachada clássica que domina o largo lá em cima.
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11. Igreja da Lapa: o Coração de D. Pedro
Largo da Lapa, 4050-069 Porto, Portugal
Para no largo e olha para a fachada: granito claro, colunas, frontão, duas torres e uma escadaria que te obriga a levantar o queixo. A Igreja da Lapa é sóbria por fora, e lá dentro guarda o objeto mais extraordinário de todo este passeio... não o vais ver, mas vais saber exatamente onde está.
A igreja nasceu da devoção a Nossa Senhora da Lapa, trazida para o Porto no século XVIII pelo padre Ângelo de Sequeira, um pregador nascido no Brasil. A construção começou em 1756 e prolongou-se por muitas décadas, por isso o que vês já é um edifício de gosto neoclássico, mais romano do que barroco. Lá dentro há talha dourada e mármores, mas é na capela-mor que a história fica séria.
Numa parede da capela-mor, atrás de uma grade e de várias fechaduras, está guardado o coração de D. Pedro IV. Cumpriu-se o testamento: o rei morreu em 1834 e, no ano seguinte, o coração chegou ao Porto para ficar na cidade que tinha resistido ao cerco. Está conservado em formol, dentro de uma urna, e só sai da parede em ocasiões raríssimas.
Uma dessas ocasiões aconteceu em 2022. Para os duzentos anos da independência do Brasil, o coração viajou até Brasília e foi recebido com honras de chefe de Estado, como se o próprio imperador regressasse. Depois voltou, e foi de novo fechado aqui. Pensa nisto: o homem que proclamou a independência do Brasil e deu a Portugal uma Constituição ficou dividido entre os dois países. O corpo repousa em São Paulo desde 1972... o coração escolheu o Porto.
Começaste numa estação com nome de convento e acabas numa igreja que guarda um coração. Pelo caminho viste granito, azulejo, ferro e mármore, e por trás de cada fachada uma revolução, uma falência, uma lenda ou uma despedida. Ao lado da igreja fica o cemitério da Lapa, onde repousa Camilo Castelo Branco. A estação de metro da Lapa fica a dois passos... e o Porto continua lá em baixo, à tua espera.