Caves de Gaia: a História do Vinho do Porto à Beira do Douro

Da Ponte Luís I à colina da Graham's: Wellington na Serra do Pilar, barcos rabelos, o Tratado de Methuen, as leis de Pombal e a Ferreirinha, na margem que guarda o vinho do Porto

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  1. 1. Ponte Luís I: atravessar o Douro lá no alto

    Ponte Luís I (tabuleiro superior), Avenida de Vímara Peres, 4000 Porto, Portugal

    Estás a meio do tabuleiro de cima da Ponte Luís I, com o metro a passar-te nas costas e o Douro lá muito em baixo, verde-escuro, cheio de barcos pequenos. Atrás de ti, o casario do Porto agarrado à encosta. À tua frente, os telhados das caves de Gaia, com os nomes das casas de vinho escritos em letras gigantes.

    A ponte foi inaugurada em 1886 e é obra de Théophile Seyrig, um engenheiro nascido em Berlim que tinha sido sócio de Gustave Eiffel. Daí o ar de família que salta à vista: o grande arco de ferro, as treliças, a elegância de quem quer provar que o ferro também sabe ser bonito. São dois tabuleiros, um em cima e outro em baixo, e o de cima é hoje do metro e de quem anda a pé.

    Antes das pontes de ferro, atravessar o Douro era um risco. Durante séculos fez-se de barco, e a partir de 1806 por uma ponte de barcos, a Ponte das Barcas, que em 1809 cedeu debaixo de uma multidão em fuga das tropas francesas. Centenas de pessoas morreram afogadas. Uma ponte de ferro, alta, que nenhuma cheia e nenhuma multidão pudessem levar, era também uma promessa feita à cidade.

    Olha agora para a margem de Gaia. Aquela fila de armazéns de telhado vermelho, com nomes ingleses e portugueses pintados no topo, são as caves do vinho do Porto. O vinho nasce muito para montante, nas encostas do Douro vinhateiro, mas foi aqui, em Vila Nova de Gaia, que durante séculos foi guardado, envelhecido e despachado para o mundo. Sim, o vinho do Porto mora em Gaia... e os dois lados da ponte nunca se cansaram de discutir isso.

    Segue até ao fim da ponte, já em Gaia, e vira à esquerda. No topo do morro, mesmo ao lado, vais ver uma igreja redonda e um mosteiro com ar de fortaleza. Foi de lá que um general inglês olhou para o Porto, numa manhã de maio, e decidiu atravessar o rio.

  2. 2. Mosteiro da Serra do Pilar: a manhã de Wellington

    Largo de Avis, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    Estás no terreiro do Mosteiro da Serra do Pilar, no alto de um morro de granito sobre o Douro. A igreja tem uma forma rara, redonda, coroada por uma cúpula, e ao lado há um claustro também circular. E à tua frente, do outro lado do rio, o Porto inteiro, da Sé à Ribeira, como se fosse uma maqueta.

    O mosteiro foi construído a partir do século XVI pelos cónegos regrantes de Santo Agostinho, e as obras arrastaram-se por mais de um século. A planta circular da igreja e do claustro é invulgar em Portugal, e o conjunto faz parte do Património Mundial da UNESCO, com o centro histórico do Porto. Mas o que fez a fama deste morro não foi a arquitetura... foi a vista.

    Em maio de 1809, o Porto estava ocupado pelas tropas francesas do marechal Soult, que tinham destruído a ponte e recolhido os barcos para a margem norte. Arthur Wellesley, o futuro duque de Wellington, chegou a esta colina com o exército anglo-português e usou o mosteiro como posto de observação. Conta-se que gente da terra lhe arranjou umas barcas de transportar vinho, e os primeiros soldados começaram a atravessar o rio, um pouco a montante, num ponto mal vigiado.

    Quando os franceses perceberam, já havia soldados ingleses entrincheirados num seminário do outro lado. Soult teve de abandonar o Porto à pressa, a 12 de maio de 1809, deixando para trás, diz a história, o jantar servido, que acabou por ser comido pelos ingleses. Duas décadas depois, durante o Cerco do Porto, este mosteiro voltou a ser posição militar, desta vez dos liberais, e aguentou meses de ataques absolutistas.

    Repara como, daqui de cima, o rio parece pequeno e manso. Não é, nunca foi. Agora desce do terreiro e passa para o outro lado da avenida da ponte, para poente, até um jardim cheio de árvores à beira do penhasco. Lá tens a estação de cima de um teleférico... e a melhor vista sobre os telhados das caves.

  3. 3. Jardim do Morro e Teleférico de Gaia: a varanda das caves

    Avenida da República, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    Estás no Jardim do Morro, debaixo de árvores grandes, num relvado que desce em socalcos até um penhasco sobre o rio. Ao fim da tarde isto enche-se de gente sentada na relva a ver o sol a pôr-se para os lados da Foz. Ali ao lado, pequenas cabinas penduradas num cabo descem devagar pela encosta: é o Teleférico de Gaia.

    O teleférico abriu em 2011 e liga este jardim, cá em cima, ao Cais de Gaia, lá em baixo, numa viagem de pouco mais de meio quilómetro por cima dos telhados das caves. Resolve à moda do Norte um problema antigo: em Gaia, como no Porto, entre o rio e a parte alta da cidade há sempre uma encosta a pique. E de caminho oferece a melhor vista aérea sobre os armazéns do vinho.

    Olha para baixo, para aqueles telhados todos. Porque é que o vinho do Porto ficou deste lado do rio? Há várias explicações, e somam-se. A margem de Gaia está virada a norte, apanha menos sol direto, e os armazéns mantêm-se frescos e húmidos, o que é ótimo para o vinho envelhecer devagar nas pipas. Diz-se também que guardar o vinho fora dos muros do Porto poupava aos comerciantes algumas taxas e muitas discussões.

    Durante séculos, Gaia foi o grande entreposto do vinho do Porto. O vinho fazia-se no Douro, mas era aqui que envelhecia, era lotado e de onde partia para o estrangeiro. Até 1986, aliás, a exportação tinha de passar obrigatoriamente pelas caves de Gaia. Só a partir daí os produtores do Douro puderam vender o seu vinho do Porto ao mundo diretamente a partir das quintas.

    Podes descer de teleférico ou a pé, pelas ruas e escadas que descem a encosta em direção ao rio. Lá em baixo, procura a beira da água, junto à estação de baixo do teleférico. Há barcos de madeira escura à tua espera, com uma vela quadrada e um remo comprido na popa.

  4. 4. Cais de Gaia e os barcos rabelos: o Douro antes das barragens

    Avenida de Ramos Pinto, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    À beira do cais, encostados uns aos outros, balançam barcos de madeira escura, compridos e de fundo chato, cada um com uma vela quadrada e, na popa, um remo enorme, quase tão comprido como o próprio barco. Nas velas, os nomes das casas de vinho. São os barcos rabelos, e durante séculos foram eles que trouxeram o vinho do Porto até aqui.

    O rabelo foi desenhado para um rio difícil. O Douro de antigamente não era este espelho calmo: tinha rápidos, rochedos, correntes traiçoeiras, e no verão havia troços com pouquíssima água. O fundo chato deixava o barco passar em águas baixas, e aquele remo comprido na popa, a espadela, servia de leme. O homem que a manobrava ia num estrado alto, para ver o rio por cima da carga.

    Cada viagem rio abaixo era uma aposta. Os rabelos desciam carregados de pipas, e havia passagens em que os barqueiros se benziam antes de entrar, como o Cachão da Valeira, um desfiladeiro de rochas onde muitos barcos se perderam. Rio acima, a viagem era ainda mais dura: à vela quando o vento ajudava, e muitas vezes puxados à corda por homens e juntas de bois, a partir das margens.

    O que acabou com os rabelos não foi o rio, foi o comboio. A linha do Douro chegou ao coração da região vinhateira no fim do século XIX, e depois vieram as estradas e os camiões. Ao longo do século XX os rabelos foram deixando de trabalhar, e as barragens construídas no Douro mudaram o próprio rio para sempre. Os que vês aqui são memória viva, mantidos pelas casas de vinho como quem guarda um retrato de família.

    Todos os anos, pelo São João, há uma regata de rabelos no Douro, com as velas das casas de vinho a competir à frente da Ribeira. Agora segue pelo cais para nascente, em direção à ponte. Num largo encostado à margem vais ver uma silhueta negra, de capa e chapéu de abas largas. Tenho a certeza de que já a viste em algum lado.

  5. 5. Caves Sandeman: o Don de capa e sombreiro

    Largo de Miguel Bombarda 3, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    No topo do armazém, ou pintada numa parede, lá está ela: uma figura toda negra, envolta numa capa comprida, com um chapéu de abas largas e um copo na mão. Chamam-lhe o Don, e é provavelmente a silhueta mais famosa do vinho do Porto. Estás em frente às caves Sandeman, no Largo de Miguel Bombarda, com o rio a dois passos.

    A casa foi fundada em 1790, em Londres, por um escocês, George Sandeman. A história conta que começou o negócio com um empréstimo de trezentas libras do pai, a vender vinho do Porto e xerez aos ingleses. Numa época em que o vinho atravessava o mar em pipas e quase ninguém pensava em marcas, a Sandeman foi das primeiras a perceber que o nome também se vende.

    O Don nasceu em 1928, desenhado por um artista chamado George Massiot Brown. Repara bem na roupa: a capa é a capa negra dos estudantes portugueses; o chapéu é o sombreiro espanhol, de Jerez. Uma figura só, a juntar as duas terras dos vinhos da casa, o Porto e o xerez. É publicidade do século XX, mas com uma pontaria que quase cem anos depois ainda não falhou.

    Por trás desta elegância há uma pergunta técnica: o que é, afinal, o vinho do Porto? É um vinho fortificado. A meio da fermentação junta-se-lhe aguardente vínica, que trava a fermentação de vez: fica açúcar natural da uva, fica força. Um vinho assim aguentava semanas no porão de um navio sem se estragar, e foi isso que o fez atravessar o mar até às mesas de Inglaterra.

    E é por isso que tantos nomes nos telhados de Gaia soam a inglês ou a escocês. Os portuenses têm com isso uma relação curiosa: orgulho no vinho, um certo encolher de ombros perante os sotaques. Agora segue mais uns metros para nascente, pela Avenida de Diogo Leite, quase até à ponte. Procura uma casa com uma caravela no símbolo... essa é portuguesa de gema.

  6. 6. Caves Cálem e a demarcação de 1756

    Avenida de Diogo Leite 344, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    Estás quase debaixo da Ponte Luís I, em frente às caves Cálem, junto ao rio. Repara no símbolo da casa: uma caravela de velas enfunadas. Não é decoração ao acaso. É um resumo da história da família, e de um comércio que olhava menos para Londres e mais para o outro lado do Atlântico.

    A Cálem foi fundada em 1859 por António Alves Cálem, um portuense que fez fortuna no comércio com o Brasil. Os barcos da família levavam vinho para lá e traziam de volta outras mercadorias, e a caravela do logótipo lembra precisamente esse vaivém. Numa margem cheia de nomes ingleses e escoceses, a Cálem é lembrada como uma casa portuguesa.

    E aqui entra uma figura incontornável: o Marquês de Pombal. Em 1756, o todo-poderoso ministro de D. José criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, com dois objetivos: acabar com as fraudes no vinho e tirar aos comerciantes ingleses o domínio do negócio. Para isso, mandou demarcar a região: só o vinho de vinhas dentro de certos limites podia ser exportado como vinho do Porto.

    Os limites foram marcados no terreno com marcos de granito, os chamados marcos pombalinos, e alguns ainda estão de pé nas encostas do Douro. Foi uma das primeiras regiões vinhateiras demarcadas e regulamentadas do mundo. Mas nem toda a gente gostou: em 1757 rebentou no Porto um motim contra a Companhia, o motim dos taberneiros, porque as novas regras mexiam com o vinho barato das tabernas. Pombal respondeu com mão pesadíssima, e houve condenações à morte.

    Pensa nisto quando olhares para os telhados: cada nome de casa, inglês ou português, viveu dentro das regras que nasceram em 1756. Agora afasta-te do rio. Sobe pelas ruas estreitas por trás das caves, para sul, numa subida a sério de quase meio quilómetro. Lá em cima, numa rua calma, espera-te a casa mais antiga desta caminhada.

  7. 7. Caves Taylor's e o Tratado de Methuen

    Rua do Choupelo 250, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    Recupera o fôlego. Estás na Rua do Choupelo, bem acima do rio, diante dos portões e dos muros que guardam as caves da Taylor's. Cá em cima o barulho do cais desaparece, e o que fica é cheiro a madeira velha e um silêncio de armazém. Faz sentido: estás diante de uma das casas mais antigas do vinho do Porto.

    A Taylor's foi fundada em 1692 por um inglês, Job Bearsley, que veio para Portugal comprar vinho. Repara na data: ainda não havia Tratado de Methuen, ainda não havia demarcação, e o vinho do Porto tal como hoje o conhecemos mal tinha nascido. Os Bearsley contam-se entre os primeiros ingleses a subir o Douro à procura das vinhas, em vez de ficarem à espera do vinho nos armazéns da costa.

    E agora o tratado. Em 1703, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Methuen, um acordo curtíssimo, de apenas três artigos. Portugal abria as portas aos tecidos de lã ingleses; em troca, os vinhos portugueses entravam em Inglaterra a pagar menos um terço de direitos do que os franceses. Inglaterra estava em guerra com a França, e de repente o vinho português ficou mais em conta do que o de Bordéus nas tabernas de Londres.

    Foi o arranque de uma paixão com mais de três séculos. Os ingleses beberam, os comerciantes enriqueceram, e Gaia encheu-se de armazéns. A Taylor's continuou a inovar muito depois disso: foi esta casa que, em 1970, lançou o primeiro vinho do Porto vendido como Late Bottled Vintage, uma maneira de pôr ao alcance de mais gente o estilo dos grandes anos. Um tratado sobre lã, no fundo, deu-nos um vinho.

    Os comerciantes britânicos do Porto mantiveram durante séculos os seus clubes e as suas regras; a Feitoria Inglesa, do outro lado do rio, ainda hoje é a casa deles. Agora desce um pouco, para norte, pelas ruas da parte velha de Gaia, até uma igreja de granito com um adro sossegado. É a igreja da padroeira desta margem.

  8. 8. Igreja de Santa Marinha: Portus, Cale e a lenda de Gaia

    Rua de Santa Marinha, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    À tua frente está a Igreja de Santa Marinha, a igreja matriz de Vila Nova de Gaia, com a fachada de granito e o adro sossegado, longe do burburinho das caves. É fácil passar sem reparar. Mas este é um bom sítio para falar do que esta margem era muito antes de haver vinho do Porto... e até antes de haver Portugal.

    Na Antiguidade e na Alta Idade Média, havia povoações frente a frente nas duas margens do Douro: Portus, do lado de lá, e Cale, que muitos situam deste lado. Uma das explicações mais aceites para o nome do país nasce aí: Portus Cale, que deu Portucale, o condado que viria a ser Portugal. Ou seja, se a teoria estiver certa, metade do nome de Portugal mora em Gaia.

    Os de Gaia não se cansam de lembrar isto aos do Porto. Os do Porto respondem que o vinho tem o nome deles. E assim se mantém, há séculos, uma rivalidade de vizinhos que partilham um rio, uma ponte e uma garrafa. É uma rivalidade com humor, mas ninguém a deixa morrer: no Norte, discutir é uma forma de carinho.

    Há também uma lenda antiga sobre esta margem, a do rei Ramiro. Conta-se que um rei cristão veio a Gaia recuperar a mulher, raptada por um rei mouro que tinha aqui o seu castelo, que entrou disfarçado e que no fim castigou toda a gente, a rainha incluída. Há quem diga que o nome de Gaia vem dela. Como todas as boas lendas, tem mais versões do que pormenores certos, e cada avó de Gaia conta a sua.

    Agora desce em direção ao rio e segue para poente, pela Avenida de Ramos Pinto, ao longo do cais. Uns quatrocentos metros à frente, procura o nome Ferreira na fachada. É a casa de uma mulher que o Douro inteiro ainda trata pelo diminutivo.

  9. 9. Caves Ferreira e Dona Antónia, a Ferreirinha

    Avenida de Ramos Pinto 70, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    Estás diante das caves Ferreira, à beira do rio, com armazéns compridos que se perdem para dentro da encosta. É uma casa portuguesa, fundada em 1751, e a sua grande figura não foi um comerciante de casaca. Foi uma mulher do Douro, baixinha, vestida de escuro, que ficou para a história como a Ferreirinha.

    Dona Antónia Adelaide Ferreira nasceu em 1811, na Régua, numa família de produtores de vinho. Ficou viúva cedo, com pouco mais de trinta anos, e em vez de entregar o negócio a outros, pegou nele ela própria. Comprou quintas, plantou vinhas, ajudou a abrir estradas e a sustentar escolas e hospitais, e tornou-se uma das pessoas mais ricas e respeitadas do país. No Douro chamavam-lhe a Ferreirinha, com carinho e com respeito.

    Em 1861, Dona Antónia descia o Douro num barco com o barão de Forrester, um inglês que conhecia o rio melhor do que ninguém e que o tinha cartografado. No Cachão da Valeira, o barco virou. Forrester afogou-se, diz-se que puxado para o fundo pelo cinto cheio de moedas de ouro. Dona Antónia salvou-se, e a lenda conta que foram as saias largas, armadas em balão, que a mantiveram à tona.

    Nos anos seguintes, o Douro foi atacado pela filoxera, a praga que destruiu vinhas por toda a Europa. Enquanto muitos desistiam, Dona Antónia continuou a investir, a replantar e a dar trabalho. Morreu em 1896, e o Douro chorou-a como a uma rainha. A casa Ferreira continuou, e em 1952 deu ao país um vinho de mesa que se tornou lenda, o Barca Velha... mas essa já é outra garrafa.

    Agora continua para poente, primeiro ao longo do rio e depois a subir por ruas íngremes até ao alto do morro. É a última subida do dia, prometo. A casa que fecha esta caminhada está lá em cima, de frente para o Porto inteiro, com uma das melhores varandas de Gaia.

  10. 10. Caves Graham's: escoceses, um pagamento em vinho e a vista final

    Rua do Agro 141, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal

    Chegaste ao alto. À tua frente, o Douro, os telhados das caves lá em baixo, a Ponte Luís I ao fundo e, do outro lado, o Porto inteiro, da Sé à Ribeira. Atrás de ti, os armazéns da Graham's, uma casa que tem nesta colina, desde o fim do século XIX, um dos miradouros mais bonitos sobre o rio.

    A Graham's nasceu em 1820, e a sua história começa com tecidos, não com vinho. Os irmãos William e John Graham eram escoceses de Glasgow e negociavam têxteis no Porto. Conta-se que um cliente, sem dinheiro para pagar uma dívida, lhes pagou em vinho, e que os irmãos, em vez de se queixarem, perceberam que tinham encontrado um negócio melhor do que o dos panos.

    Ao longo do século XIX, a casa comprou quintas no próprio Douro, para acompanhar o vinho desde a vinha até à garrafa. Desde 1970, a Graham's pertence à família Symington, de raízes escocesas e inglesas mas há gerações enraizada no Porto. É uma história típica desta margem: estrangeiros que chegaram para negociar e acabaram por ficar, a falar português com sotaque do Norte.

    Olha agora para nascente, para onde o rio desaparece entre montes. A uns cem quilómetros daqui fica o Douro vinhateiro, encostas de xisto talhadas em socalcos à mão, ao longo de gerações. Em 2001, o Alto Douro Vinhateiro foi classificado como Património Mundial da UNESCO, como paisagem cultural. Tudo o que viste hoje, os rabelos, as caves, as marcas, as leis de Pombal, começa lá, numa vinha agarrada a uma encosta impossível.

    E assim terminamos. Começaste no alto da ponte de ferro, desceste à beira do rio e ouviste falar de um general inglês, de um marquês implacável e de uma mulher que o rio não quis levar. Acabas aqui, com o Porto à frente e o Douro aos pés. Gaia guarda o vinho, o Porto deu-lhe o nome... e tu, agora, sabes a história que cabe dentro de um cálice.