Cais de Gaia e os barcos rabelos: o Douro antes das barragens

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À beira do cais, encostados uns aos outros, balançam barcos de madeira escura, compridos e de fundo chato, cada um com uma vela quadrada e, na popa, um remo enorme, quase tão comprido como o próprio barco. Nas velas, os nomes das casas de vinho.

Key Facts

PlaceCais de Gaia e os barcos rabelos: o Douro antes das barragens
AddressAvenida de Ramos Pinto, 4400 Vila Nova de Gaia, Portugal
Geo Coordinates41.13800, -8.61580
Part of WalkCaves de Gaia: a História do Vinho do Porto à Beira do Douro
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À beira do cais, encostados uns aos outros, balançam barcos de madeira escura, compridos e de fundo chato, cada um com uma vela quadrada e, na popa, um remo enorme, quase tão comprido como o próprio barco. Nas velas, os nomes das casas de vinho. São os barcos rabelos, e durante séculos foram eles que trouxeram o vinho do Porto até aqui.

O rabelo foi desenhado para um rio difícil. O Douro de antigamente não era este espelho calmo: tinha rápidos, rochedos, correntes traiçoeiras, e no verão havia troços com pouquíssima água. O fundo chato deixava o barco passar em águas baixas, e aquele remo comprido na popa, a espadela, servia de leme. O homem que a manobrava ia num estrado alto, para ver o rio por cima da carga.

Cada viagem rio abaixo era uma aposta. Os rabelos desciam carregados de pipas, e havia passagens em que os barqueiros se benziam antes de entrar, como o Cachão da Valeira, um desfiladeiro de rochas onde muitos barcos se perderam. Rio acima, a viagem era ainda mais dura: à vela quando o vento ajudava, e muitas vezes puxados à corda por homens e juntas de bois, a partir das margens.

O que acabou com os rabelos não foi o rio, foi o comboio. A linha do Douro chegou ao coração da região vinhateira no fim do século XIX, e depois vieram as estradas e os camiões. Ao longo do século XX os rabelos foram deixando de trabalhar, e as barragens construídas no Douro mudaram o próprio rio para sempre. Os que vês aqui são memória viva, mantidos pelas casas de vinho como quem guarda um retrato de família.

Todos os anos, pelo São João, há uma regata de rabelos no Douro, com as velas das casas de vinho a competir à frente da Ribeira. Agora segue pelo cais para nascente, em direção à ponte. Num largo encostado à margem vais ver uma silhueta negra, de capa e chapéu de abas largas. Tenho a certeza de que já a viste em algum lado.

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