Mouraria, berço do fado: de Severa a Amália em Lisboa
Do Intendente ao Museu do Fado: a lenda de Martim Moniz, a casa da Severa, a procissão da Senhora da Saúde, os rostos da Mouraria, a calçada de Amália e o Panteão onde ela repousa
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1. Largo do Intendente
Largo do Intendente Pina Manique, 1100 Lisboa, Portugal
Põe-te no meio do largo, de costas para a Avenida Almirante Reis, e procura a fachada que parece um biombo oriental: um prédio forrado de azulejos, com figuras exóticas, palmeiras e ornamentos pintados a azul e a cores. Foi a casa da Viúva Lamego, uma fábrica de louça e azulejo fundada em 1849, e é das fachadas mais fotografadas desta ponta de Lisboa.
O largo tem o nome de Diogo Inácio de Pina Manique, Intendente-Geral da Polícia no tempo da rainha D. Maria I. Foi ele quem fundou a Casa Pia, em 1780, e quem pôs candeeiros a iluminar as ruas da cidade à noite. Também perseguiu maçons, livros proibidos e tudo o que cheirasse às ideias da Revolução Francesa. Um polícia com fama de implacável a dar nome a um largo que, durante muito tempo, foi tudo menos sossegado... Lisboa tem destas ironias.
Durante boa parte do século XX, o Intendente foi sinónimo de prostituição, de droga e de casas a cair. Em 2011, o presidente da câmara, António Costa, decidiu mudar o seu gabinete para este largo, para obrigar a cidade a olhar para ele. As fachadas foram recuperadas, abriram cafés e esplanadas, e hoje discute-se o preço desse renascimento: as rendas subiram, e muitos dos antigos moradores já não cabem cá.
E porque começamos aqui uma caminhada sobre o fado? Porque, no século XIX, a palavra fadista não queria dizer cantor. Queria dizer rufia, boémio, gente da noite, das tabernas e dos bordéis. O fado nasceu precisamente nestes bairros de má fama, entre marinheiros, vadios, mulheres da vida e guitarristas sem dinheiro... muito antes de chegar às salas de espetáculo.
Guarda essa imagem, porque é ela que vais seguir. Agora desce pela Rua do Benformoso, a rua estreita que sai do canto sul do largo. Repara nos cheiros e nas línguas que se ouvem pelo caminho: é a Mouraria de hoje.
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2. Rua do Benformoso
Rua do Benformoso, 1100 Lisboa, Portugal
Abranda o passo e deixa-te ir com a rua: lojas de especiarias, mercearias com sacos de arroz basmati à porta, barbeiros, cartazes em bengali e em nepalês, homens a conversar em grupos à saída de uma sala de oração. Estás numa das ruas mais antigas da Mouraria, e numa das mais vivas de Lisboa.
A Mouraria sempre foi a casa de quem chegou de fora. Depois da conquista cristã de 1147, os muçulmanos que ficaram na cidade foram mandados viver aqui, fora das muralhas. Mais tarde vieram galegos, gente do interior à procura de trabalho, africanos, chineses, e agora famílias do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão. O bairro mudou de sotaque muitas vezes, mas nunca deixou de ser porta de entrada.
E é aqui que vale a pena desfazer um mito. Durante muito tempo contou-se que o fado vinha dos cantos dos mouros, um lamento árabe que teria ficado nestas ruelas. É uma ideia bonita e romântica, mas os historiadores da música não encontram provas dela.
O que os documentos mostram é outra viagem, mais recente. No princípio do século XIX, dançavam-se em Lisboa o lundum e a fofa, danças de origem afro-brasileira, vindas do Brasil num tempo em que Lisboa e o Rio de Janeiro trocavam navios, gente e canções. Misturaram-se com a modinha, com as cantigas dos marinheiros e com a vida dura dos bairros pobres. Por volta dos anos 1820 e 1830, já se ouvia nestas ruas uma coisa a que se chamava fado.
Ou seja, o fado é filho de muitas margens, africanas, brasileiras e lisboetas, e por isso fica tão bem numa rua como esta, onde se cruzam meio mundo e meia dúzia de religiões. Segue até ao fim da Rua do Benformoso. Vais desembocar numa praça comprida e aberta, que tem o nome de um cavaleiro que, segundo a lenda, morreu entalado numa porta.
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3. Praça Martim Moniz
Praça Martim Moniz, 1100 Lisboa, Portugal
Olha para cima, por cima dos prédios do lado nascente: lá no alto, a muralha do Castelo de São Jorge recorta-se contra o céu. Esta praça comprida, cheia de elétricos, autocarros e gente a atravessar, tem o nome de um homem que, segundo a lenda, ajudou a tomar aquele castelo com o próprio corpo.
Estamos em 1147. D. Afonso Henriques cerca Lisboa, ajudado por cruzados vindos do Norte da Europa a caminho da Terra Santa. Conta a lenda que um cavaleiro chamado Martim Moniz viu uma porta do castelo entreaberta e se atirou para dentro dela, deixando-se esmagar entre os batentes para que os mouros não a conseguissem fechar. Os companheiros entraram, e a porta ficou a chamar-se Porta de Martim Moniz.
A história real foi mais longa e menos heroica: um cerco de vários meses, fome, doença e, no fim, a rendição da cidade e um saque violento. Mas Lisboa prefere a lenda, e a lenda ficou gravada nesta praça.
E a praça em si também conta uma perda. Até meados do século XX, aqui havia ruas estreitas, uma igreja, casas antigas, a parte baixa da velha Mouraria. Os planos urbanísticos do Estado Novo deitaram quase tudo abaixo a partir dos anos 1940, para abrir avenidas que muitas vezes nem chegaram a ser feitas. Durante décadas ficou aqui um terreno vazio, uma ferida no bairro. Não é por acaso que tantos fados choram a Mouraria antiga: Amália cantou-a em Ai Mouraria, quando boa parte dela já tinha desaparecido.
Hoje, a praça é o lugar mais multicultural de Lisboa, com lojas chinesas, restaurantes indianos e mercados de rua aos fins de semana. Caminha agora para o canto sul da praça, onde começa a Rua da Mouraria. Ali, apertada entre prédios de comércio, há uma capela pequenina que guarda a procissão mais antiga da cidade.
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4. Capela de Nossa Senhora da Saúde
Rua da Mouraria, Largo Martim Moniz, 1100 Lisboa, Portugal
Para diante desta capela tão pequena que quase passa despercebida, com o seu portal simples e o sino lá em cima, encaixada entre lojas e montras. Parece não ter importância nenhuma... e, no entanto, é um dos lugares mais queridos da Mouraria. Repara no contraste: lá fora o trânsito do Martim Moniz, as lojas de telemóveis, os autocarros; cá dentro, mais de quatro séculos e meio da mesma promessa.
É uma capela do século XVI, e a sua história está ligada ao medo. Em 1569, Lisboa foi devastada por uma epidemia de peste, a chamada Peste Grande, que matou milhares de pessoas em poucos meses. Os lisboetas pediram proteção à Senhora da Saúde e prometeram-lhe uma procissão se a doença passasse. Desde 1570, a promessa cumpre-se todos os anos.
Num domingo de primavera, a imagem sai daqui em andor e percorre as ruas da Mouraria e da Baixa, com bandas, colchas penduradas nas janelas e vizinhos de lágrima no olho. É considerada a procissão mais antiga de Lisboa. E foi tão importante para o bairro que entrou no fado: Há Festa na Mouraria, um dos fados mais célebres de Amália, canta precisamente o dia desta procissão.
Repara que o fado e a fé, aqui, nunca andaram de costas voltadas. As mesmas mulheres que à noite cantavam nas tabernas desciam de manhã à missa, com o xaile pela cabeça. Muitos fados falam de santos, de promessas, de procissões e de pecados, tudo misturado, como se misturava na vida destes becos.
Ao lado da capela sobem as Escadinhas da Saúde, que levam o nome dela, e à tua frente começa a Rua da Mouraria. A Mouraria é isto, um bairro feito de degraus, onde ninguém anda muito tempo a direito. Segue a Rua da Mouraria para nascente e, logo a seguir, entra na Rua do Capelão. Repara nos painéis com rostos de fadistas pela parede fora: estás a chegar à rua da primeira fadista de que há memória.
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5. Rua do Capelão e Largo da Severa
Rua do Capelão, 1100 Lisboa, Portugal
Caminha devagar pela Rua do Capelão e olha para as paredes: painéis com os rostos de fadistas famosos acompanham-te até ao pequeno largo ao fundo, onde uma escultura de guitarra portuguesa marca o lugar. Chegaste ao altar profano do fado. Aqui viveu, e aqui morreu, Maria Severa Onofriana.
A Severa nasceu em 1820, na Madragoa, mas foi na Mouraria que se tornou lenda. Era prostituta, cantava e tocava guitarra nas tabernas do bairro, e tinha uma voz que, diz-se, fazia calar uma sala inteira. Para o bairro, nunca precisou de apelido: era simplesmente a Severa, e ainda hoje basta o nome. Tornou-se famosa sobretudo por causa de um amor escandaloso com um aristocrata, o Conde de Vimioso, toureiro e boémio, que a levava às touradas e às esperas de touros ao lado da nobreza.
A história acabou cedo. Maria Severa morreu em 1846, com apenas vinte e seis anos, provavelmente de tuberculose, aqui na Rua do Capelão. Conta-se que as fadistas passaram a usar xaile preto em sinal de luto por ela. É uma lenda, mas basta olhar para uma fotografia de Amália para perceber como ficou.
Depois da morte, a Severa nunca mais parou de renascer. Em 1901, Júlio Dantas escreveu sobre ela a peça A Severa, e em 1931 Leitão de Barros fez dela o primeiro filme sonoro português. Uma prostituta da Mouraria foi, portanto, a primeira voz que o cinema nacional pôs a falar. Durante anos, para muitos portugueses que nunca tinham posto os pés em Lisboa, a Mouraria era aquilo que tinham visto naquele ecrã.
E esta rua não ficou por aí: aqui nasceu, em 1933, Fernando Maurício, a quem chamavam o rei do fado da Mouraria, uma voz que nunca quis sair do bairro. Cantou durante décadas nas tabernas e coletividades destas ruas e morreu em 2003, sem nunca ter deixado de ser um homem da Mouraria. Daqui, desce para sul pelos becos da encosta, uns duzentos e cinquenta metros, até um beco estreito onde os vizinhos te olham das paredes.
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6. Beco das Farinhas e Largo dos Trigueiros
Largo dos Trigueiros, 1100 Lisboa, Portugal
Entra no beco e deixa que te olhem: dezenas de rostos de velhos moradores, fotografias a preto e branco impressas sobre madeira e penduradas nas paredes, mesmo ao lado das portas das casas onde essas pessoas viveram. Alguns sorriem, outros desconfiam, todos parecem conhecer-te.
O projeto chama-se O Tributo e começou em 2009, pela mão de Camilla Watson, uma fotógrafa inglesa que veio viver para a Mouraria e tem o estúdio aqui ao lado, no Largo dos Trigueiros. Foram os próprios moradores, uns vinte e cinco, que escolheram a fotografia que queriam ver na parede. As imagens foram impressas com técnicas artesanais, sobre madeira, sobre pedra e por vezes diretamente na parede. Muitos dos retratados já morreram, e os retratos continuam aqui, a fazer parte da rua.
Estas caras são o público verdadeiro do fado. Antes das casas de fado com toalha branca e jantar, havia o fado vadio: cantava-se nas tascas, nos pátios e nas festas de bairro, por quem tivesse voz e coragem, sem pagar e sem cobrar. Um guitarrista, um violista, um copo de vinho, e alguém que se levantava para cantar a sua vida. Ainda hoje há noites assim na Mouraria, em sítios que não aparecem em guia nenhum.
E em junho, este bairro explode. Nos Santos Populares, os becos enchem-se de arraiais, sardinhas assadas, manjericos, bandeirinhas de papel e colunas aos berros. A Mouraria tem a sua própria marcha, e o bairro inteiro torce por ela como se fosse futebol. Nessas noites, entre o fumo das sardinhas, há sempre alguém que pede silêncio para cantar um fado.
Repara também nas casas recuperadas e nas chaves de alojamento local à porta: a Mouraria está a mudar depressa, e estes retratos são cada vez mais memória do que vizinhança. Agora sobe as escadinhas para sul; a menos de cento e cinquenta metros, uma igreja que resistiu ao terramoto espera por ti.
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7. Igreja de São Cristóvão
Largo de São Cristóvão, 1100 Lisboa, Portugal
Recupera o fôlego no pequeno largo e olha para a fachada branca, discreta, de uma igreja que já viu Lisboa cair. A Igreja de São Cristóvão foi uma das poucas da cidade que aguentaram o terramoto de 1755 de pé, e por isso guarda lá dentro uma coisa rara: um interior do século XVII que nunca foi refeito.
Se a encontrares aberta, entra. Paredes e tetos estão cobertos de pinturas, mais de quarenta delas atribuídas a Bento Coelho da Silveira, um dos pintores mais prolíficos do barroco português. É como entrar numa Lisboa anterior ao terramoto, a cidade que Pombal nunca chegou a apagar.
Mas sobreviver ao terramoto não chegou. Nas últimas décadas, a humidade e a falta de dinheiro puseram a igreja em risco, ao ponto de entrar na lista de monumentos ameaçados do World Monuments Fund. Foi a própria comunidade da Mouraria, com a paróquia, que organizou campanhas, concertos e angariações para a salvar. Um bairro pobre a pagar do seu bolso para não perder o seu património.
E as escadinhas por onde muita gente chega aqui, as Escadinhas de São Cristóvão, que descem até à Rua da Madalena, tinham um dos murais mais bonitos sobre o fado em Lisboa. Foi pintado em 2012 por um grupo de artistas, Nuno Saraiva entre eles, e mostrava a Severa, Fernando Maurício, guitarristas e versos de fados. O prédio onde estava acabou por ser demolido depois de um incêndio, e hoje o mural só existe em fotografias. Também isto é muito fado: a beleza que se perde e que fica na memória.
São Cristóvão é o padroeiro dos viajantes, e é justo pedir-lhe força agora. Vais subir para nascente, a contornar a encosta do castelo: é a subida mais dura do dia, quase meio quilómetro. No topo, numa rua de Alfama, a voz mais famosa do fado espera-te no chão.
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8. Rua de São Tomé: a calçada de Amália
Rua de São Tomé, 1100 Lisboa, Portugal
Baixa os olhos para o chão e procura o rosto: no meio da calçada, feito de pedrinhas brancas e pretas, está o retrato de Amália Rodrigues, jovem, de olhos semicerrados, como se estivesse a meio de um fado. Há quem passe por cima sem reparar... e há quem pare e não consiga voltar a pisar.
O retrato foi feito em 2015 por Alexandre Farto, o artista conhecido como Vhils, famoso por esculpir rostos em paredes. Desta vez não esculpiu nada: trabalhou com os calceteiros da Câmara de Lisboa, pedra a pedra, durante semanas, com a mesma técnica que cobre os passeios da cidade há gerações. Os vizinhos dizem que, quando chove, a Amália chora.
E a vida dela merece um retrato no chão de Lisboa. Nasceu em 1920, numa família pobre, e ainda rapariga vendeu fruta no cais. Em 1939 estreou-se como profissional numa casa de fado, e em poucos anos tornou-se a voz de Portugal no mundo, de Paris a Nova Iorque, de Tóquio ao Rio de Janeiro. Em 1947 foi a protagonista do filme Fado, História d'uma Cantadeira, e o cinema ajudou a espalhar a voz dela ainda mais longe. Levou o fado das tabernas aos grandes palcos sem lhe tirar a dor.
E ousou. Com o compositor Alain Oulman, começou a cantar grandes poetas, incluindo o próprio Camões, e houve quem achasse um escândalo uma fadista cantar Os Lusíadas e os sonetos. Ela respondeu como sabia: cantando-os tão bem que hoje ninguém se lembra da polémica.
Depois do 25 de Abril de 1974, chegou a ser acusada de ter sido a cantora do regime, e passou um período amargo. A história revelou-se mais complicada do que essas acusações. Quando morreu, a 6 de outubro de 1999, o governo decretou três dias de luto nacional. Segue agora para nascente, passa a igreja de São Vicente de Fora e procura a grande cúpula branca: é lá que ela repousa.
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9. Panteão Nacional
Campo de Santa Clara, 1100 Lisboa, Portugal
Levanta a cabeça para a cúpula branca que domina o Campo de Santa Clara, e depois olha para trás, para o Tejo azul que se abre do terraço lá de cima. Este edifício é a antiga Igreja de Santa Engrácia, hoje Panteão Nacional, e tem uma das histórias mais lisboetas que conheço.
É que demorou quase três séculos a acabar. As obras começaram em 1682 e a cúpula só ficou concluída em 1966. Por isso, quando em Portugal uma obra nunca mais acaba, ainda se diz que são obras de Santa Engrácia. Há até uma lenda: um homem acusado injustamente de um roubo sacrílego na igreja anterior, executado no século XVII, terá jurado que a obra nunca havia de ficar pronta.
O Estado Novo terminou-a e transformou-a em Panteão Nacional, o lugar onde a República honra os seus mortos ilustres: presidentes, escritores como Almeida Garrett e João de Deus, o poeta Guerra Junqueiro, o general Humberto Delgado. A planta em cruz grega é rara em Lisboa, e do terraço vê-se o estuário quase inteiro. Mais recentemente chegaram a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, o futebolista Eusébio e Eça de Queirós.
Em julho de 2001, Amália Rodrigues foi trasladada do Cemitério dos Prazeres para aqui. Foi a primeira mulher a receber honras de Panteão em Portugal. Repara no que isto significa: a música que nasceu nas tabernas da Mouraria, cantada por mulheres que a cidade respeitável desprezava, entrou no mesmo edifício onde repousam presidentes e escritores.
Dizem os fãs que há sempre flores frescas junto ao túmulo dela, e é verdade que raramente falta um ramo. Para o último passo, desce para sul, pelas escadinhas e pelas ruas de Alfama, até ao Largo do Chafariz de Dentro, junto ao rio. É sempre a descer, uns quinhentos metros, e no fim espera-te a casa de todo o fado.
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10. Museu do Fado
Largo do Chafariz de Dentro 1, 1100 Lisboa, Portugal
Para à porta do edifício rosado na esquina do largo, junto ao rio: é o Museu do Fado, aberto em 1998 num antigo edifício ligado ao abastecimento de água da cidade. Lá dentro há uma parede inteira de rostos de fadistas, do chão ao teto, e dezenas de guitarras... uma espécie de árvore genealógica da canção de Lisboa.
Repara, se entrares, nas guitarras portuguesas. Têm o corpo em forma de pera e doze cordas de metal, agrupadas em pares, e descendem da cítara que se tocava na Europa do século XVIII, a que em Portugal se chamou guitarra inglesa. No fado, é ela que chora; a viola, ao lado, segura o ritmo. O som que ouviste em pensamento ao longo de toda esta caminhada sai destas cordas, feitas ainda hoje por guitarreiros que aprenderam o ofício com os pais.
A 27 de novembro de 2011, a UNESCO inscreveu o fado na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Pensa no caminho que isto representa: uma música que nos anos 1820 se cantava em tabernas da Mouraria, entre rufias e mulheres da vida, tornou-se património do mundo inteiro. A Severa, o Fernando Maurício, a Amália, e milhares de vozes anónimas do fado vadio... todos cabem nessa linha.
E há uma palavra que acompanha o fado sem a qual nada disto se percebe: saudade. Não é bem tristeza nem bem nostalgia, é a presença de uma ausência, a falta de alguém ou de um tempo que ainda nos faz companhia. Os lisboetas dizem que não se explica, canta-se. E têm razão.
Aqui termina a caminhada. Começaste num largo de má fama, passaste pela casa da Severa, pelos rostos da Mouraria, pela calçada de Amália e pelo seu túmulo, e chegaste à casa de todos eles. Agora resta-te o mais importante: esta noite, entra numa tasca de Alfama ou da Mouraria, pede silêncio com os olhos... e deixa o fado fazer o resto.