Rua de São Tomé: a calçada de Amália
Why is it significant?
Baixa os olhos para o chão e procura o rosto: no meio da calçada, feito de pedrinhas brancas e pretas, está o retrato de Amália Rodrigues, jovem, de olhos semicerrados, como se estivesse a meio de um fado. Há quem passe por cima sem reparar... e há quem pare e não consiga voltar a pisar.
Key Facts
| Place | Rua de São Tomé: a calçada de Amália |
|---|---|
| Address | Rua de São Tomé, 1100 Lisboa, Portugal |
| Geo Coordinates | 38.71290, -9.13060 |
| Part of Walk | Mouraria, berço do fado: de Severa a Amália em Lisboa |
| Generated | Generated |
Baixa os olhos para o chão e procura o rosto: no meio da calçada, feito de pedrinhas brancas e pretas, está o retrato de Amália Rodrigues, jovem, de olhos semicerrados, como se estivesse a meio de um fado. Há quem passe por cima sem reparar... e há quem pare e não consiga voltar a pisar.
O retrato foi feito em 2015 por Alexandre Farto, o artista conhecido como Vhils, famoso por esculpir rostos em paredes. Desta vez não esculpiu nada: trabalhou com os calceteiros da Câmara de Lisboa, pedra a pedra, durante semanas, com a mesma técnica que cobre os passeios da cidade há gerações. Os vizinhos dizem que, quando chove, a Amália chora.
E a vida dela merece um retrato no chão de Lisboa. Nasceu em 1920, numa família pobre, e ainda rapariga vendeu fruta no cais. Em 1939 estreou-se como profissional numa casa de fado, e em poucos anos tornou-se a voz de Portugal no mundo, de Paris a Nova Iorque, de Tóquio ao Rio de Janeiro. Em 1947 foi a protagonista do filme Fado, História d'uma Cantadeira, e o cinema ajudou a espalhar a voz dela ainda mais longe. Levou o fado das tabernas aos grandes palcos sem lhe tirar a dor.
E ousou. Com o compositor Alain Oulman, começou a cantar grandes poetas, incluindo o próprio Camões, e houve quem achasse um escândalo uma fadista cantar Os Lusíadas e os sonetos. Ela respondeu como sabia: cantando-os tão bem que hoje ninguém se lembra da polémica.
Depois do 25 de Abril de 1974, chegou a ser acusada de ter sido a cantora do regime, e passou um período amargo. A história revelou-se mais complicada do que essas acusações. Quando morreu, a 6 de outubro de 1999, o governo decretou três dias de luto nacional. Segue agora para nascente, passa a igreja de São Vicente de Fora e procura a grande cúpula branca: é lá que ela repousa.