Graça e São Vicente: azulejos, panteões e miradouros no alto de Lisboa
Das fábulas de La Fontaine em azulejo às estrelas do Bairro Estrela d'Ouro: a Feira da Ladra, o Panteão dos Bragança, a escola dos operários, o elétrico 28, a poesia de Sophia, as vilas operárias e os miradouros mais altos de Lisboa
Lisbon · 11 stops · 25 min audio · Generated
-
1. Campo de Santa Clara e a Feira da Ladra
Campo de Santa Clara, 1100 Lisboa, Portugal
Estás num largo comprido, com a cúpula branca de Santa Engrácia de um lado e as torres de São Vicente do outro. Nos dias de feira, este chão enche-se de panos estendidos e de bancas improvisadas: discos de vinil, azulejos soltos, fardas antigas, telefones de disco, brinquedos de lata, livros sem capa e coisas que ninguém sabe para que servem. É a Feira da Ladra, e o seu palco é o Campo de Santa Clara.
É uma das feiras mais antigas de Lisboa. Há notícia de uma feira de coisas usadas na cidade desde a Idade Média, e ela andou de largo em largo antes de se instalar aqui, há mais de um século. E o nome? Há quem diga que vem das coisas roubadas que ali se revendiam, ladra de ladrão. Outros garantem que tem a ver com os bichos que vinham agarrados à roupa velha. Nenhuma das versões é muito lisonjeira, e os lisboetas gostam das duas.
Para um lisboeta, a feira é quase um desporto. Há os colecionadores que chegam de lanterna ao nascer do dia, para apanhar o melhor antes de toda a gente. Há a arte de regatear com calma, sem ofender ninguém. E há o prazer de encontrar, no meio da tralha, uma fotografia de família de 1920, um postal escrito por um desconhecido ou um azulejo do século XIX... o que, diga-se, também pode ser um problema sério.
Lisboa perdeu milhares de azulejos de fachadas, igrejas e palácios para o roubo e para o mercado negro. Por isso nasceu o projeto SOS Azulejo, ligado à Polícia Judiciária, para identificar peças roubadas e ajudar a recuperá-las, e a cidade passou a proteger as fachadas azulejadas contra a demolição. Se vires um painel bonito numa banca, a pergunta certa não é quanto custa. É de onde veio.
Antes de seguires, olha outra vez para a cúpula. Santa Engrácia levou quase três séculos a ficar pronta, de 1682 a 1966, e é por isso que em Lisboa uma obra que nunca mais acaba é uma obra de Santa Engrácia. Mas o primeiro tesouro deste passeio está do outro lado: um dos conjuntos de azulejos mais impressionantes de Lisboa, no sítio onde foi posto há quase trezentos anos. Segue o largo para poente, passa pelo velho mercado, e vais ver uma fachada branca com duas torres a fechar a rua. É São Vicente de Fora.
-
2. Mosteiro de São Vicente de Fora: azulejos, fábulas e reis
Largo de São Vicente, 1100-572 Lisboa, Portugal
À tua frente, uma fachada branca e severa, com duas torres e estátuas de santos em nichos, ergue-se no cimo de uma escadaria. É São Vicente de Fora, mosteiro e igreja, e o nome explica-se depressa: quando foi fundado, ficava fora das muralhas da cidade.
A primeira igreja foi mandada fazer por D. Afonso Henriques logo a seguir à conquista de Lisboa aos mouros, em 1147, junto ao lugar onde tinham sido sepultados os cruzados mortos no cerco. A que vês agora é muito posterior: foi começada em 1582, quando Portugal era governado por Filipe II de Espanha. São Vicente é o padroeiro de Lisboa, e diz a lenda que as suas relíquias chegaram por mar, num barco guardado por dois corvos... é por isso que há dois corvos no brasão da cidade.
Mas o tesouro está lá dentro, nos claustros e corredores: um dos maiores conjuntos de azulejos barrocos do mundo, azul e branco, pintados no século XVIII. Há cenas de caça, de jardins, de episódios da história de Lisboa. E, no andar de cima, uma surpresa deliciosa: as fábulas de La Fontaine, a raposa e as uvas, a cigarra e a formiga, o lobo e o cordeiro, em dezenas de painéis. Fábulas com moral no meio de um mosteiro de cónegos. Repara nas caras dos bichos: o pintor divertiu-se.
O antigo refeitório guarda o Panteão dos Bragança, a última dinastia de reis portugueses. Estão lá D. João IV, aclamado em 1640, quando Portugal recuperou a independência, e muitos dos seus descendentes. Estão lá o rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe, mortos no regicídio de 1908, e a rainha D. Amélia, que lhes sobreviveu mais de quarenta anos. E está lá Catarina de Bragança, que casou com Carlos II de Inglaterra e, conta-se, ajudou a pôr os ingleses a beber chá.
Uma coisa que poucos visitantes fazem: subir ao terraço do mosteiro. Lá de cima vês a cúpula de Santa Engrácia de um lado, o rio do outro, e os telhados a descer em cascata até à água. Quando saíres, sobe pela Rua da Voz do Operário, por onde passa o elétrico 28, até ao grande edifício que deu nome à rua. É uma subida curta, mas a sério.
-
3. A Voz do Operário: a escola que os operários construíram
Rua da Voz do Operário, 1100 Lisboa, Portugal
Para a meio da subida e olha para o edifício grande e sóbrio que ocupa quase um quarteirão desta rua inclinada, com o nome A Voz do Operário escrito na fachada. Pela frente passa o elétrico 28, a raspar no passeio. Parece uma escola pública como tantas outras... mas foi construída por operários, com o dinheiro dos operários.
Tudo começou com um jornal. Em 1879, os trabalhadores das fábricas de tabaco de Lisboa, que estavam entre os operários mais organizados da cidade, fundaram um semanário para defender os seus direitos, e chamaram-lhe A Voz do Operário. Para o manter vivo criaram, em 1883, uma sociedade. E essa sociedade depressa percebeu que havia uma coisa ainda mais urgente do que um jornal: ensinar os filhos dos operários a ler.
Convém lembrar o país de então. Por volta de 1900, cerca de três em cada quatro portugueses não sabiam ler nem escrever. As crianças pobres de Lisboa trabalhavam cedo, em fábricas, oficinas e no porto, e a escola era um luxo. A Voz do Operário abriu escolas gratuitas para elas, pagas pelas quotas de milhares de sócios, gente que ganhava pouco e mesmo assim dava alguma coisa para que os filhos dos outros aprendessem.
Este edifício, a sede, foi inaugurado nos anos 30 e foi pensado à grande, com salas de aula, biblioteca e um salão de festas. Gerações de lisboetas da Graça, de São Vicente e da Alfama aprenderam aqui as primeiras letras. Há qualquer coisa de comovente nesta escala: o bairro operário a construir para si próprio um edifício tão sério como os dos ricos.
E a história não acabou. A Voz do Operário continua a ter escolas e creches em Lisboa, e a sede é ainda lugar de assembleias, concertos e bailes do bairro. Se a porta estiver aberta, espreita o átrio. Depois continua a subir a rua; o Largo da Graça fica mesmo aqui acima, onde o elétrico faz a curva.
-
4. Largo da Graça, Vila Sousa e o elétrico 28
Largo da Graça, 1170 Lisboa, Portugal
Chegaste ao Largo da Graça, o coração do bairro: cafés com esplanada, bancos à sombra, velhotes a discutir futebol e, a cada poucos minutos, o chiar de um elétrico amarelo a fazer a curva. Num dos lados do largo, repara num prédio comprido e decorado, com uma passagem em arco ao centro. É a Vila Sousa.
As vilas são uma invenção lisboeta do século XIX. Quando as fábricas cresceram na zona oriental, em Xabregas e em Marvila, milhares de operários chegaram do campo e não havia onde os pôr. Proprietários e industriais construíram então estes conjuntos de pequenas casas à volta de um pátio, escondidos atrás de uma fachada mais nobre. A Vila Sousa, do final do século XIX, é das mais elegantes, e passa-se pelo arco como quem entra noutro mundo, mais silencioso, onde ainda há gente a viver.
E agora, o elétrico. Lisboa tem elétricos movidos a eletricidade desde 1901, e a carreira 28 tornou-se a mais famosa de todas, a subir e a descer colinas em curvas impossíveis, a centímetros das paredes. Os carros amarelos de madeira que vês são os chamados remodelados: carros antigos modernizados por dentro nos anos 90, que mantêm o aspeto e o barulho de há quase um século.
Para os vizinhos, o 28 tornou-se um problema. As filas de turistas são tão grandes que muitos moradores idosos já não conseguem entrar no elétrico que passa à porta de casa. Ao mesmo tempo, o bairro foi mudando: muitas casas passaram a alojamento local e as rendas empurraram famílias inteiras para fora. Quando parares num café aqui do largo, repara em quem ainda é do bairro... é cada vez mais raro, e cada vez mais precioso.
Em junho, nas festas dos Santos Populares, este largo enche-se de cheiro a sardinha assada, de manjericos e de bandeirinhas, e a marcha da Graça, que ensaia meses a fio, sai daqui para desfilar na avenida. Agora atravessa o largo em direção à igreja e passa por baixo das árvores até ao miradouro. São só uns passos.
-
5. Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen e a Igreja da Graça
Largo da Graça, Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, 1170 Lisboa, Portugal
Encosta-te ao parapeito, debaixo dos pinheiros mansos, e deixa a cidade abrir-se à tua frente: o castelo à esquerda, a Baixa lá em baixo, o Bairro Alto do outro lado do vale e o rio ao fundo, com a ponte. Atrás de ti ficam a igreja e o convento da Graça. Durante muito tempo isto foi só o Miradouro da Graça. Hoje tem o nome de uma poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen.
O convento é dos mais antigos da cidade: os frades agostinhos instalaram-se nesta colina no século XIII. Daqui sai, todos os anos na Quaresma, a procissão do Senhor dos Passos da Graça, uma das mais antigas de Lisboa, com uma imagem de Cristo a carregar a cruz que os lisboetas veneram há séculos. E nesta igreja foi sepultado Afonso de Albuquerque, o governador da Índia... só que o túmulo se perdeu com o terramoto de 1755.
Depois de 1834, com a extinção das ordens religiosas, o convento passou para o exército e foi quartel durante muito tempo. É uma história que se repete por toda a cidade: conventos que se tornaram quartéis, hospitais, escolas, ministérios. A Lisboa liberal do século XIX instalou-se, literalmente, dentro das casas dos frades.
Sophia nasceu no Porto, em 1919, mas viveu grande parte da vida aqui na Graça, a poucos passos deste miradouro. Escreveu sobre o mar, a luz e a justiça, e foi uma voz firme contra a ditadura. Depois da revolução de 1974 escreveu o poema mais citado desse dia, aquele que chama ao 25 de Abril o dia inicial inteiro e limpo. Em 1999 foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões, e desde 2014 repousa no Panteão Nacional, debaixo daquela cúpula branca que viste ao lado da Feira da Ladra.
Fica um minuto calado e ouve: os sinos, as gaivotas, um elétrico lá em baixo, alguém a estender a roupa numa janela. É este o som da Graça. Depois segue pelas ruas para norte, uns minutos apenas, até ao portão do Jardim da Cerca da Graça, que desce em socalcos pela encosta.
-
6. Jardim da Cerca da Graça: o quintal que o bairro ganhou
Jardim da Cerca da Graça, 1170 Lisboa, Portugal
Desce pelos socalcos até encontrares um banco virado para poente: à tua frente, o Castelo de São Jorge parece estar à distância de um braço, e lá em baixo estendem-se os telhados da Mouraria. Estás no Jardim da Cerca da Graça, um jardim que durante séculos esteve fechado a quase toda a gente.
Cerca era o nome que se dava à terra murada de um convento: as hortas, os pomares, os poços e os tanques que alimentavam os frades. Esta era a cerca do convento da Graça. Com a extinção das ordens, em 1834, passou para as mãos do Estado e ficou durante muito tempo esquecida atrás de muros altos, entregue ao mato. Só em 2015 abriu ao público como jardim.
E os vizinhos adotaram-no logo. Há hortas cultivadas por moradores, um quiosque com esplanada, miúdos a correr na relva e gente a ler à sombra das árvores. Num bairro de ruas estreitas e casas pequenas, sem quintais, estes socalcos passaram a ser o quintal que a Graça nunca teve.
Esta é também a Lisboa dos pintores. Carlos Botelho, um dos grandes modernistas portugueses, passou décadas a pintar a cidade vista do alto: as colinas empilhadas, as fachadas brancas e ocre, a roupa a secar, os telhados que se encavalitam uns nos outros. Olha para a encosta à tua frente e percebes porquê. Lisboa é uma pintura feita de planos, de luz e de cal, e muda de cor de hora para hora.
O jardim também mostra como a cidade pode recuperar o que parecia perdido. Muitas cercas de conventos lisboetas desapareceram debaixo de prédios, ruas e avenidas nos séculos XIX e XX; esta sobreviveu porque ficou escondida atrás dos muros. Sai pela parte de cima do jardim e segue para a Senhora do Monte. A subida é curta mas íngreme, e lá em cima espera-te um dos miradouros mais altos de Lisboa.
-
7. Miradouro da Senhora do Monte e a cadeira de São Gens
Rua da Senhora do Monte, 1170 Lisboa, Portugal
Sobe os últimos metros, passa pela pequena ermida branca e chega ao parapeito: este é um dos miradouros mais altos de Lisboa, e muitos lisboetas dizem, sem modéstia nenhuma, que é a melhor vista da cidade. Tens o castelo à esquerda, quase à tua altura, a Baixa em xadrez lá em baixo, a Avenida da Liberdade a subir para norte e o rio a brilhar ao fundo.
A ermida é a de Nossa Senhora do Monte, fundada no século XIII e reconstruída depois do terramoto de 1755. Mas antes da Senhora houve aqui outro culto: o de São Gens, que a tradição diz ter sido o primeiro bispo de Lisboa, martirizado ainda no tempo dos romanos. Por isso esta colina se chamou durante muito tempo Monte de São Gens.
Dentro da ermida guarda-se uma cadeira de pedra a que chamam a cadeira de São Gens. Diz a tradição que as mulheres grávidas que nela se sentassem teriam um bom parto, e conta-se que até rainhas portuguesas subiram esta colina para se sentar na pedra antes de darem à luz. Durante séculos, Lisboa confiou nesta cadeira pelo menos tanto como nas parteiras.
Daqui percebe-se a forma da cidade como em nenhum outro sítio. A Baixa plana, desenhada a régua e esquadro depois do terramoto, encaixada entre colinas que continuam a ter ruas medievais. Aos teus pés, a Mouraria a escorrer pela encosta. Do outro lado do vale, o Bairro Alto e o Príncipe Real. É um mapa vivo, e ao pôr do sol fica cor de laranja e de rosa, como se alguém tivesse acendido a cidade por dentro.
Ao fim da tarde o miradouro enche-se, e convém lembrar que há gente a viver nas casas à volta: fala baixo, leva o teu lixo, deixa o sítio como o encontraste. Depois desce pela Rua da Senhora do Monte e vira para a Rua do Sol à Graça. Procura um portão discreto que dá para uma rua estreita com varandas de ferro.
-
8. Vila Berta: varandas de ferro e arraial de junho
Rua do Sol à Graça, Vila Berta, 1170 Lisboa, Portugal
Entra pela rua estreita e de repente estás noutro século: duas filas de casas de dois e três andares, frente a frente, com varandas corridas de ferro, gradeamentos rendilhados, vasos de sardinheiras e roupa a secar por cima da calçada. É a Vila Berta, e parece um cenário de cinema, só que verdadeiro.
Foi construída no início do século XX, mais ou menos entre 1902 e 1908, por um proprietário chamado Joaquim Francisco Tojal, que lhe deu o nome da filha, Berta. Ao contrário das vilas operárias mais pobres, escondidas em pátios, esta foi pensada para a pequena burguesia: casas com mais divisões, varandas, ferro trabalhado, uma rua inteira com portões nas duas pontas.
Repara no trabalho do ferro. Era o tempo da Arte Nova, e os serralheiros lisboetas faziam maravilhas com o ferro forjado e fundido: espirais, flores, folhas, colunas finas que seguram as varandas como se fossem renda. As fachadas, as cantarias, as escadas, tudo foi pensado como um conjunto, o que é raro numa cidade onde cada prédio costuma fazer-se à sua maneira.
Em junho, nos Santos Populares, a Vila Berta transforma-se. Pendura-se papel colorido de varanda a varanda, as janelas enchem-se de manjericos, aparecem grelhadores à porta e a vila costuma tornar-se um dos arraiais mais bonitos da Graça, com sardinha assada, caldo verde e música até tarde. Se estiveres em Lisboa na noite de Santo António, de 12 para 13 de junho, vem cá espreitar.
Mas lembra-te de que isto não é um museu. Vivem aqui famílias, há crianças a sair para a escola e pessoas que nasceram nestas casas. A Vila Berta é um dos sítios mais fotografados da Graça precisamente porque continua viva... e deve continuar assim. Sai pelo outro lado da vila e sobe para norte, em direção à Rua da Senhora do Monte, onde vais encontrar portões e grades cheios de estrelas.
-
9. Bairro Estrela d'Ouro e o Royal Cine
Rua da Senhora do Monte, Bairro Estrela d'Ouro, 1170 Lisboa, Portugal
Repara no chão, nos portões, nas grades das janelas: há estrelas por todo o lado. Estrelas de ferro, estrelas desenhadas na calçada, estrelas por cima das portas. Estás à entrada do Bairro Estrela d'Ouro, um pequeno bairro dentro do bairro, com ruas próprias e um nome que parece tirado de um conto.
Quem o mandou construir, no início do século XX, foi Agapito Serra Fernandes, um galego que veio para Lisboa e fez fortuna com uma fábrica de doces e chocolates. Construiu casas para os operários e para arrendar, ao longo de ruas a que, conta-se, deu nomes de mulheres da sua família, e espalhou por todo o lado o símbolo da sua casa: a estrela.
Passeia devagar pelas ruas interiores. Casas baixas, portas pintadas, pequenos jardins, um silêncio quase de aldeia a dois passos da Rua da Graça. Era um paternalismo industrial muito típico da época: o patrão dava casa a quem trabalhava para ele e, com ela, mantinha-o por perto e debaixo de olho. Mais de cem anos depois, ficou um conjunto coerente e cuidado, e um dos segredos mais bem guardados da Graça.
E Agapito não se ficou pelas casas. Mesmo ao lado, na Rua da Graça, mandou construir um cinema, o Royal Cine, que abriu no fim dos anos 20. Conta-se que foi lá que muitos lisboetas ouviram pela primeira vez um filme a falar, por volta de 1930, quando o cinema sonoro chegou a Portugal. Imagina a sala cheia de vizinhos da Graça, a ouvir pela primeira vez uma voz sair do ecrã.
O cinema fechou há muito tempo. O edifício ainda lá está, mas hoje é um supermercado, e quem entra para comprar pão raramente sabe que está numa antiga sala de cinema. Lisboa é assim, feita de camadas. Agora prepara as pernas: vais descer para norte e voltar a subir até ao Monte Agudo, um miradouro que quase só os lisboetas conhecem.
-
10. Miradouro do Monte Agudo: a Lisboa dos lisboetas
Rua Heliodoro Salgado, Miradouro do Monte Agudo, 1170 Lisboa, Portugal
Entra no pequeno largo do miradouro, com bancos e algumas árvores, e olha para trás, para o caminho que fizeste: lá estão a Graça e a Senhora do Monte, empoleiradas na colina, e mais longe o castelo. É o Monte Agudo, um dos miradouros mais discretos de Lisboa, quase sempre com mais vizinhos do que visitantes.
Lisboa gosta de dizer que tem sete colinas, como Roma. A lista muda conforme quem a faz, mas a Graça entra sempre, e o Monte Agudo nunca. Esta é uma colina da Lisboa que cresceu depois, entre o fim do século XIX e o século XX, quando a cidade saiu definitivamente das muralhas e subiu por estes montes, antes ocupados por quintas e hortas.
Lá em baixo corre a Avenida Almirante Reis, uma das mais compridas da cidade. O nome é de Cândido dos Reis, um almirante republicano que, na noite de 3 para 4 de outubro de 1910, convencido de que a revolução tinha falhado, pôs fim à vida. Não sabia que os revolucionários estavam a ganhar. No dia 5 de outubro, a República era proclamada na varanda da Câmara Municipal.
É uma história muito portuguesa, essa de perder a esperança na véspera da vitória. E foi desta Lisboa operária e republicana que nasceram os bairros de Arroios e da Penha de França: prédios de rendimento, muitos com fachadas forradas a azulejo de padrão, quadrados de cor repetidos até ao telhado, uma moda que tomou conta de Lisboa no século XIX. Diz-se muitas vezes que o gosto veio do Brasil, com os emigrantes que voltavam ricos... mas é uma daquelas histórias que os historiadores ainda discutem.
Fica um bocado a ver a luz. A esta altura do passeio já percebeste que Lisboa é uma cidade de varandas: cada colina olha para as outras, e todas olham para o rio. Agora segue para norte pelas ruas do bairro, mais uns minutos, até à igreja branca no alto da Penha de França, o último miradouro do dia.
-
11. Igreja e Miradouro da Penha de França: a promessa e o lagarto
Largo da Penha de França, 1170-298 Lisboa, Portugal
Chegaste ao alto da Penha de França: uma igreja de fachada branca, um largo calmo e, ao lado, um miradouro com vista para o lado da cidade que os turistas quase nunca veem, o Tejo largo a nascente, os bairros novos e os aviões a descer para o aeroporto.
A igreja nasceu de uma promessa. Conta a tradição que um escultor de imagens chamado António Simões combateu em Alcácer-Quibir, em 1578, a batalha em que desapareceu o rei D. Sebastião e que abriu caminho a sessenta anos de reis espanhóis. Simões sobreviveu, prometeu à Senhora da Penha de França, uma devoção nascida num santuário de Espanha, que lhe ergueria uma capela, e cumpriu: no fim do século XVI começou a construí-la neste monte.
E há a lenda do lagarto. Diz-se que um peregrino adormeceu na encosta deste monte e que uma cobra se aproximou dele; um lagarto acordou-o mesmo a tempo. O homem, convencido de que fora a Senhora a mandar-lhe o lagarto, espalhou o milagre por toda a cidade, e o bicho ficou para sempre ligado à devoção da Penha. Ainda hoje há lisboetas que falam do lagarto da Penha como de um velho conhecido do bairro.
À volta da capela cresceu um convento, que acabou extinto no século XIX como tantos outros, e a igreja, como quase toda a Lisboa, sofreu com o terramoto de 1755. Mas a devoção ficou, e durante séculos a Penha foi destino de romarias, com lisboetas a subir o monte a pé para cumprir promessas. Do miradouro, repara como a cidade muda: daqui não há postais, há a Lisboa onde a maioria dos lisboetas realmente vive.
E assim acaba o passeio, longe dos postais. Começaste na feira dos objetos perdidos, passaste pelos azulejos de São Vicente, pela escola dos operários, pelo elétrico, pela poesia de Sophia, pelas varandas da Vila Berta e pelas estrelas de um fabricante de chocolates. A Lisboa das colinas de cima é feita disto: de arte nos sítios mais inesperados e de gente que ainda vive dentro dela. Senta-te no miradouro, olha para o rio e descansa... mereces.