Igreja da Conceição Velha: o portal que sobreviveu

Why is it significant?

Olha para este portal de pedra: cordas torcidas, folhagens, esferas armilares, anjos, santos minúsculos em nichos, tudo rendilhado como se a pedra fosse massa de bolo. Agora olha para o resto da fachada, lisa e certinha à volta dele. Estás a ver um sobrevivente.

Key Facts

PlaceIgreja da Conceição Velha: o portal que sobreviveu
AddressRua da Alfândega, 1100 Lisboa, Portugal
Geo Coordinates38.70890, -9.13420
Part of WalkBaixa Pombalina: a Lisboa que renasceu do terramoto de 1755
GeneratedGenerated

Open the walk

Olha para este portal de pedra: cordas torcidas, folhagens, esferas armilares, anjos, santos minúsculos em nichos, tudo rendilhado como se a pedra fosse massa de bolo. Agora olha para o resto da fachada, lisa e certinha à volta dele. Estás a ver um sobrevivente.

Este portal é manuelino, do início do século XVI, o estilo do tempo das grandes viagens, cheio de símbolos do mar e do rei D. Manuel. Pertencia à igreja da Misericórdia de Lisboa, a irmandade fundada em 1498 pela rainha D. Leonor para tratar dos pobres, dos doentes, dos presos e das crianças abandonadas. Era uma das casas mais ricas e mais importantes da cidade.

Em 1755, a igreja desabou quase toda. Ficou de pé esta parte da fachada, com o portal, e pouco mais. A Misericórdia mudou-se para outro lado da cidade, e nas ruínas reconstruídas instalou-se a paróquia de outra igreja destruída, a de Nossa Senhora da Conceição. Para não a confundir com uma nova, chamaram-lhe Conceição Velha. É a lógica de Lisboa: o velho e o novo trocam de lugar e de nome sem pedir licença a ninguém.

Repara no tímpano, o semicírculo por cima da porta. Nossa Senhora abre o manto e abriga debaixo dele uma pequena multidão ajoelhada: um papa, bispos, e figuras que se costumam identificar com o rei D. Manuel e a rainha D. Leonor. A ideia era simples e poderosa... ninguém, nem o rei, estava acima da misericórdia.

É um bom sítio para perceber o que Lisboa perdeu. Antes de 1755, a cidade baixa era um emaranhado de ruas medievais com portais como este, palácios, conventos e igrejas apertados uns contra os outros. Depois, a Baixa nova escolheu a sobriedade: fachadas iguais, quase sem ornamento, porque a pressa era abrigar gente e não impressionar ninguém. Agora segue para poente pela Rua da Conceição até à Rua dos Correeiros, onde está escondido, debaixo de um banco, um pedaço de tudo o que veio antes.

Nearby stories