Casa dos Bicos: o palácio das pontas de diamante

Why is it significant?

Estás diante da fachada mais espetada de Lisboa: centenas de pedras talhadas em pirâmide, todas viradas para ti, como se a casa estivesse de guarda ao rio. Quando o sol bate de lado, cada bico faz a sua própria sombra e a parede inteira parece mexer-se.

Key Facts

PlaceCasa dos Bicos: o palácio das pontas de diamante
AddressRua dos Bacalhoeiros 10, 1100-135 Lisboa, Portugal
Geo Coordinates38.70910, -9.13270
Part of WalkAlfama e Castelo de São Jorge: a Lisboa mais antiga, do cerco de 1147 aos becos
GeneratedGenerated

Open the walk

Estás diante da fachada mais espetada de Lisboa: centenas de pedras talhadas em pirâmide, todas viradas para ti, como se a casa estivesse de guarda ao rio. Quando o sol bate de lado, cada bico faz a sua própria sombra e a parede inteira parece mexer-se.

Quem a mandou fazer, por volta de 1523, foi Brás de Albuquerque, filho do grande Afonso de Albuquerque, o governador da Índia que conquistou Goa e Malaca. O pai morreu em 1515, no mar, sem voltar a ver Lisboa, e o filho, que até mudou o nome para Afonso em homenagem a ele, quis uma casa que ninguém pudesse esquecer. Foi buscar a moda dos palácios italianos de pedras em diamante, e conseguiu: há quinhentos anos que os lisboetas lhe chamam, simplesmente, a Casa dos Bicos.

Só que o que estás a ver é meia verdade. O terramoto de 1755 deitou abaixo os andares de cima, e durante mais de dois séculos a casa ficou atarracada, com dois pisos, a servir de armazém numa rua que se chama dos Bacalhoeiros por boas razões. Os andares superiores só voltaram em 1983, reconstruídos a partir de gravuras antigas para uma grande exposição europeia de arte e cultura. Ou seja, metade é do tempo dos Descobrimentos e metade é do tempo dos Xutos... e quase ninguém dá pela costura.

E a casa desce ainda mais fundo. Lá dentro, no piso térreo, apareceram tanques romanos onde se salgava peixe há uns dois mil anos, e um troço da muralha que os mouros ergueram à beira-rio. A mesma parede junta Olisipo, a Lisboa islâmica e os Descobrimentos, empilhados como as camadas de um bolo que ninguém se lembrou de cortar.

Desde 2012, é a casa da Fundação José Saramago. Repara na oliveira ali em frente, junto ao passeio: veio da Azinhaga, a aldeia ribatejana onde ele nasceu, e debaixo dela estão as cinzas do único Nobel da Literatura escrito em português, enterradas ali em 2011. Não há estátua nem pedestal, só uma árvore e uma frase do Memorial do Convento gravada numa pedra. É muito à Saramago. Agora segue para nascente, sempre junto ao rio, pela Rua dos Bacalhoeiros e pela Rua Cais de Santarém, até um chafariz que conta uma história menos confortável.

Nearby stories