Chafariz d'El-Rei: a Lisboa africana do século XVI
Why is it significant?
Estás diante de uma fachada discreta, quase de repartição pública, com as bicas encostadas à parede e a rua dos carros a passar ao lado. Toda a gente passa aqui sem olhar duas vezes... e, no entanto, este é, ao que tudo indica, o chafariz público mais antigo de Lisboa.
Key Facts
| Place | Chafariz d'El-Rei: a Lisboa africana do século XVI |
|---|---|
| Address | Rua Cais de Santarém, 1100 Lisboa, Portugal |
| Geo Coordinates | 38.70970, -9.12950 |
| Part of Walk | Alfama e Castelo de São Jorge: a Lisboa mais antiga, do cerco de 1147 aos becos |
| Generated | Generated |
Estás diante de uma fachada discreta, quase de repartição pública, com as bicas encostadas à parede e a rua dos carros a passar ao lado. Toda a gente passa aqui sem olhar duas vezes... e, no entanto, este é, ao que tudo indica, o chafariz público mais antigo de Lisboa.
Há notícias dele desde a Idade Média, quando o rio chegava quase até aqui e os barcos encostavam mesmo ao lado. Vários reis foram-no arranjando ao longo dos séculos, daí o nome d'El-Rei, e a frente que vês hoje é só do século XIX. A água vinha das nascentes da encosta da Alfama e, durante gerações, foi a mais procurada da cidade, pelo menos para quem conseguia chegar à bica.
Porque nem todos chegavam da mesma maneira. A Lisboa do século XVI era a grande porta de entrada de pessoas escravizadas trazidas de África, e há estimativas que apontam para perto de um em cada dez habitantes da cidade a viver em escravidão. Conta-se que as bicas deste chafariz chegaram a estar repartidas por grupos: uma para escravos e negros forros, outras para os homens brancos, outras para as mulheres. A fila para a água era um retrato da sociedade inteira, com a hierarquia toda à vista de quem passava.
E esse retrato existe mesmo, em tinta. Há um quadro pintado por volta de 1570, de autor desconhecido, que mostra este sítio cheio de gente: aguadeiros, vendedeiras, músicos, barqueiros, e uma quantidade enorme de africanos e afrodescendentes a carregar cântaros, a dançar, a discutir. Até aparece um cavaleiro negro, montado, com a cruz de uma ordem militar ao peito. É uma das imagens mais vivas da Lisboa do Renascimento... e é uma Lisboa muito mais africana do que a dos manuais da escola.
Pensa nisso da próxima vez que alguém te disser que a cidade só se tornou diversa há pouco tempo. Lisboa sempre foi um porto, e os portos nunca foram de uma cor só. Agora volta para poente e sobe a Rua de São João da Praça, uma rua estreita e inclinada, até ao largo onde duas torres de pedra parecem uma fortaleza. É a Sé.