Beco do Carneiro e Santo Estêvão: os becos de Alfama
Why is it significant?
Abre os braços... ou melhor, nem tentes. O Beco do Carneiro é tão estreito que, nalguns pontos, dois vizinhos de janelas opostas quase podem apertar a mão. Degraus gastos, paredes caiadas, canos à vista, uma tira de céu lá em cima. Bem-vindo à Alfama verdadeira. O próprio nome do bairro é árabe.
Key Facts
| Place | Beco do Carneiro e Santo Estêvão: os becos de Alfama |
|---|---|
| Address | Beco do Carneiro, 1100 Lisboa, Portugal |
| Geo Coordinates | 38.71200, -9.12810 |
| Part of Walk | Alfama e Castelo de São Jorge: a Lisboa mais antiga, do cerco de 1147 aos becos |
| Generated | Generated |
Abre os braços... ou melhor, nem tentes. O Beco do Carneiro é tão estreito que, nalguns pontos, dois vizinhos de janelas opostas quase podem apertar a mão. Degraus gastos, paredes caiadas, canos à vista, uma tira de céu lá em cima. Bem-vindo à Alfama verdadeira.
O próprio nome do bairro é árabe. Alfama vem de al-hamma, que quer dizer qualquer coisa como fontes ou banhos quentes, por causa das nascentes de água que brotam no sopé desta colina. A malha que estás a percorrer, com becos sem saída, escadinhas, pátios e travessas que mudam de nome a cada esquina, é a herança de uma cidade islâmica e medieval que nunca foi alinhada a régua e esquadro.
E aqui está a ironia que salvou o bairro. Em 1755, enquanto a Baixa, assente em aterros e areias, se desfazia, a Alfama estava pousada na rocha. Muitas casas aguentaram melhor o abalo e, por isso, nunca houve aqui um plano do Marquês de Pombal para endireitar as ruas. Esta desordem toda é, no fundo, uma prova de sobrevivência.
Sobe uns degraus até ao adro de Santo Estêvão. A igreja é uma das paróquias medievais da Alfama, reconstruída no século XVIII, e o terraço à frente é um miradouro que quase ninguém conhece, com o rio a aparecer entre os telhados. Em junho, estes becos enchem-se de fumo de sardinha, bandeirinhas de papel, manjericos com quadras e música até de madrugada. São os santos populares, e aqui são levados muito, muito a sério: cada rua tem o seu arraial e cada bairro a sua marcha.
Um conselho de amigo: num beco da Alfama não se fotografa para dentro das janelas, e não se sobe a escada de ninguém. Estas casas são pequenas e antigas, muitas vezes de famílias que aqui estão há gerações, e cada vez são menos, empurradas pelas rendas. Agora desce pelas escadinhas até à Rua de São Miguel e segue até ao largo da igreja com o mesmo nome, onde há uma palmeira muito alta.