Ribeira das Naus: onde o rio entrou na cidade
Why is it significant?
Desce até aos degraus de pedra que entram no rio e senta-te. À tua frente, o Tejo largo e a outra margem; atrás de ti, um relvado onde as pessoas se deitam ao sol; ao lado, as pedras de uma velha doca seca, como uma ferida aberta no chão. É um sítio tranquilo.
Key Facts
| Place | Ribeira das Naus: onde o rio entrou na cidade |
|---|---|
| Address | Avenida da Ribeira das Naus, 1100 Lisboa, Portugal |
| Geo Coordinates | 38.70660, -9.14030 |
| Part of Walk | Baixa Pombalina: a Lisboa que renasceu do terramoto de 1755 |
| Generated | Generated |
Desce até aos degraus de pedra que entram no rio e senta-te. À tua frente, o Tejo largo e a outra margem; atrás de ti, um relvado onde as pessoas se deitam ao sol; ao lado, as pedras de uma velha doca seca, como uma ferida aberta no chão. É um sítio tranquilo. Em 1755, foi um dos lugares mais terríveis de Lisboa.
Aqui ficava a Ribeira das Naus, o estaleiro real onde se construíam os navios da carreira da Índia, e logo ao lado o Paço da Ribeira, o palácio que D. Manuel I mandou erguer à beira-rio no início do século XVI, quando trocou o castelo pelo cheiro a alcatrão e a especiarias. Era o coração do império: a Casa da Índia, a alfândega, a biblioteca real com dezenas de milhares de livros, mapas e documentos.
Na manhã de 1 de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, com as igrejas cheias, a terra tremeu durante vários minutos. Os prédios caíram, as velas acesas nos altares pegaram fogo à cidade, e muita gente fugiu precisamente para aqui, para a beira-rio, à procura de espaço aberto. Foi então que o rio recuou... e voltou em ondas que varreram o cais. Os incêndios duraram dias. As estimativas de mortos em Lisboa variam muito, de cerca de dez mil a várias dezenas de milhares, numa cidade com perto de duzentos mil habitantes.
O Paço da Ribeira desapareceu com tudo o que tinha dentro: a biblioteca, os arquivos da Índia, quadros, tapeçarias. A família real escapou porque estava em Belém. Conta-se que o rei D. José nunca mais quis dormir debaixo de um teto de pedra, e a corte passou anos a viver numa espécie de palácio de madeira, no alto da Ajuda.
Desse desastre nasceu uma das experiências urbanas mais ousadas da Europa do seu tempo: a Baixa Pombalina, que vais percorrer agora, rua a rua. A doca que vês foi posta a descoberto quando esta margem foi renovada, há pouco mais de uma década, e hoje é um dos sítios preferidos dos lisboetas ao fim da tarde, de imperial na mão. Agora caminha junto ao rio, para nascente, até à grande praça aberta, com duas colunas a sair da água.