Igreja de São Domingos: pedra queimada, memória aberta
Why is it significant?
Entra, se a porta estiver aberta, e deixa os olhos habituarem-se à penumbra. As colunas estão rachadas e escurecidas, com a pedra cor de ferrugem e de cinza. Não é falta de restauro. É uma ferida deixada à vista de propósito.
Key Facts
| Place | Igreja de São Domingos: pedra queimada, memória aberta |
|---|---|
| Address | Largo de São Domingos, 1100 Lisboa, Portugal |
| Geo Coordinates | 38.71470, -9.13830 |
| Part of Walk | Baixa Pombalina: a Lisboa que renasceu do terramoto de 1755 |
| Generated | Generated |
Entra, se a porta estiver aberta, e deixa os olhos habituarem-se à penumbra. As colunas estão rachadas e escurecidas, com a pedra cor de ferrugem e de cinza. Não é falta de restauro. É uma ferida deixada à vista de propósito.
O convento de São Domingos foi fundado em 1241 e tornou-se um dos mais poderosos de Lisboa. Foi aqui, em abril de 1506, que começou um dos episódios mais negros da história da cidade. Durante uma missa, um cristão-novo duvidou em voz alta de um suposto milagre, e foi linchado. Frades incitaram a multidão, e durante três dias foram mortos em Lisboa entre dois mil e quatro mil cristãos-novos. No largo cá fora, um memorial e uma inscrição lembram-no hoje e chamam a Lisboa cidade da tolerância... mais como promessa do que como descrição.
Décadas depois, com a Inquisição instalada em Portugal, os dominicanos tiveram nela um papel central, e as procissões dos autos de fé, as cerimónias públicas em que se liam as sentenças, passavam por este largo a caminho do Rossio, mesmo ao lado. A igreja foi depois muito destruída pelo terramoto de 1755 e reconstruída no estilo sóbrio da época.
Em agosto de 1959, um incêndio devorou o interior por completo: altares, pinturas, imagens, o teto. A igreja esteve fechada durante décadas, e quando reabriu, em 1994, decidiu-se manter as marcas do fogo nas paredes e nas colunas. O resultado é um dos espaços mais impressionantes de Lisboa, metade igreja, metade cicatriz, e a luz a entrar como se ainda houvesse fumo no ar.
Cá fora, o Largo de São Domingos é um ponto de encontro da comunidade africana de Lisboa, sobretudo guineense e cabo-verdiana, e ao canto continua aberta, desde 1840, a pequena casa da ginjinha, onde se bebe de pé um copinho de licor de ginja, com ou sem elas. Passado e presente, lado a lado, no mesmo largo. Agora contorna o teatro e sai para a frente dele, para a grande praça do Rossio.