Pastéis de Belém: a receita dos monges desde 1837
Why is it significant?
Primeiro sente-se o cheiro a massa folhada e a canela, e só depois se vê a fachada de azulejo azul e branco e a fila, que às vezes se estende pelo passeio fora. Estás à porta da Fábrica dos Pastéis de Belém, aberta em 1837.
Key Facts
| Place | Pastéis de Belém: a receita dos monges desde 1837 |
|---|---|
| Address | Rua de Belém 84-92, 1300-085 Lisboa, Portugal |
| Geo Coordinates | 38.69750, -9.20330 |
| Part of Walk | Belém sem mitos: Jerónimos, Torre de Belém e a verdade dos Descobrimentos em Lisboa |
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Primeiro sente-se o cheiro a massa folhada e a canela, e só depois se vê a fachada de azulejo azul e branco e a fila, que às vezes se estende pelo passeio fora. Estás à porta da Fábrica dos Pastéis de Belém, aberta em 1837. Um conselho de lisboeta: lá dentro há salas e mais salas, e muitas vezes encontras mesa mais depressa do que chegas ao balcão.
A história começa no mosteiro aqui ao lado. Em 1820, a revolução liberal abalou o país e, em 1834, as ordens religiosas foram extintas e os conventos fechados. Para sobreviver, alguém do mosteiro começou a vender uns pastéis doces numa pequena loja junto a uma refinaria de açúcar. Os frades partiram, a receita ficou, e em 1837 abriu esta casa para continuar a fazê-los.
E a receita continua secreta. Diz a casa que só um punhado de mestres pasteleiros a conhece, e que trabalham numa sala fechada a que chamam a oficina do segredo. Há quase dois séculos que Lisboa tenta imitar... e todos os pastéis de nata da cidade, por melhores que sejam, são primos deste. Só os que saem daqui se podem chamar pastéis de Belém.
Agora, uma pergunta que quase ninguém faz enquanto polvilha canela: de onde vinha o açúcar? Durante séculos, o açúcar que adoçou a doçaria conventual portuguesa veio da Madeira, de São Tomé e, sobretudo, das plantações do Brasil, trabalhadas por africanos escravizados. Em 1837, quando esta casa abriu, a escravatura ainda era legal no Brasil, e só seria abolida em 1888. Os doces de convento, de que tanto nos orgulhamos, também nasceram desse açúcar.
Dito isto, come-o quente, que é como deve ser. Massa estaladiça que se desfaz em lascas, creme ainda morno, canela e açúcar em pó por cima, à tua medida. Os lisboetas discutem há gerações se o pastel se come com uma bica, com um galão ou sozinho, e ninguém ganha a discussão. Quando acabares, segue pela Rua de Belém para poente: a fachada de pedra que se estende à tua frente, a perder de vista, é o mosteiro onde tudo começou.