San Telmo, Plaza Dorrego e as Origens do Tango: Adoquines Coloniais e Boêmia

Do Parque Lezama e cúpulas russas à feira de antiguidades e Santo Domingo

Buenos Aires · 12 stops · 29 min audio · Generated

  1. 1. Parque Lezama e o Monumento à Cordialidade

    Brasil & Defensa, C1154 CABA, Argentina

    Bem-vindos a San Telmo, o bairro mais antigo e charmoso de Buenos Aires, iniciando este roteiro entre as sombras generosas de tipas e jacarandás no Parque Lezama. Empoleirado sobre uma colina natural voltada para o que era antigamente a margem pantanosa do Rio da Prata, este parque ocupa um solo lendário na memória cívica portenha. Historiadores e tradições orais apontam que exatamente aqui, em fevereiro de 1536, o conquistador espanhol Dom Pedro de Mendoza fundou o primeiro assentamento de Santa María del Buen Ayre antes que a fome e a resistência indígena forçassem a retirada espanhola.

    Observe a topografia em socalcos do parque: as escadarias de pedra e os terraços sombreados acompanham a curva da antiga ravina que defendia o acesso sul da vila colonial.

    Em meados do século dezenove, o rico comerciante e fazendeiro José Gregorio Lezama transformou esta encosta silvestre em uma grandiosa quinta botânica particular. Lezama investiu vultosas quantias importando árvores exóticas de vários continentes, nivelou colinas e ergueu uma mansão senhorial com mirante italiano. Após seu falecimento em 1889, sua viúva Angela Álzaga vendeu a propriedade à municipalidade sob a condição inegociável de que se tornasse um parque público para sempre. Em 1936, no quarto centenário da primeira fundação, a nação irmã do Uruguai ofertou à Argentina o Monumento à Cordialidade Internacional, uma esplêndida fonte de bronze e granito que retrata uma caravela enfrentando as ondas guiada por figuras de fraternidade.

    Sentar-se no anfiteatro de pedra enquanto músicos de rua dedilham violões acústicos sob a copa das magnólias transporta você aos primeiros suspiros históricos da grande capital. Percorrer os caminhos sinuosos sob as folhagens centenárias permite apreciar as camadas profundas de lendas nativas, conquistas ibéricas e esplendor aristocrático que moldaram este rincão portenho.

    Caminhe para o norte pelo terraço alto até avistar a imponente estátua de bronze de Dom Pedro de Mendoza.

  2. 2. Monumento a Dom Pedro de Mendoza e a Colina Pampeana

    Brasil 150, C1154 CABA, Argentina

    Diante do mirante superior do Parque Lezama contemplamos a imponente escultura em bronze de Dom Pedro de Mendoza, Primeiro Adiantado do Rio da Prata. Inaugurado em 1936 para assinalar os quatrocentos anos da chegada da esquadra espanhola à foz do estuário, este memorial heroico foi concebido pelo mestre uruguaio Juan Zorrilla de San Martín. Mendoza surge trajando armadura de campanha do século dezesseis, apoiando as duas mãos sobre uma pesada espada enquanto fitava as águas distantes onde outrora ancoravam suas catorze caravelas.

    Olhe para o muro de granito atrás do conquistador: um relevo entalhado retrata um guerreiro indígena Querandí retesando um arco, homenageando os habitantes originais que defenderam seu território ancestral.

    Quando Mendoza aportou em fevereiro de 1536 com dois mil homens e animais de carga, deparou-se com uma estepe pampeana agreste. Embora as primeiras relações com os nômades Querandíes tenham envolvido trocas de peixes e carnes, mal-entendidos e exigências coloniais provocaram um confronto violento. Em junho de 1536, na Batalha de Corpus Christi, os guerreiros nativos impuseram dura derrota à cavalaria hispânica. Cercados no pequeno forte de barro por milhares de indígenas com flechas incendiárias, os colonos sofreram terrível escassez de alimentos antes de abandonarem a colina em 1541. O próprio Mendoza, gravemente enfermo, faleceu em alto-mar a caminho da Espanha em 1537. Somente quarenta e quatro anos depois, em 1580, Juan de Garay refundaria a cidade de forma definitiva na Plaza de Mayo.

    A vista do alto desta ravina revela a altitude que a margem do rio possuía antes que os aterros portuários do século vinte avançassem centenas de metros sobre o estuário. Contemplar este mirante histórico sobre a foz pampeana ajuda a compreender as duras provações enfrentadas pelos pioneiros de ambos os povos no nascimento da civilização do Rio da Prata.

    Prossiga pelos gramados do parque em direção à imponente fachada ocre do Museu Histórico Nacional.

  3. 3. Museu Histórico Nacional no Palácio Lezama

    Defensa 1600, C1143 CABA, Argentina

    Diante de nós ergue-se o imponente casarão neoclássico de estilo italiano do Museu Histórico Nacional, coroado por uma torre mirante quadrada e ladeado por galerias sombreadas. Construída em 1857 como residência de verão de José Gregorio Lezama pelo arquiteto britânico James Oliver, esta residência foi concebida para exibir o requinte da elite argentina oitocentista. Em 1897, o governo municipal transferiu para este palacete o acervo histórico do país, transformando a mansão no santuário máximo da memória republicana.

    Olhe para o mirante no topo do telhado: dali, na década de 1860, Lezama utilizava um telescópio de latão para acompanhar a movimentação dos navios cargueiros no porto do rio.

    Ao passar pelas salas do museu, entramos no coração da independência sul-americana. A peça mais sagrada do acervo é o sabre corvo do General José de San Martín. Adquirida por San Martín em Londres em 1811, esta lâmina de cavalaria o acompanhou nas travessias dos Andes e nas batalhas decisivas do Chile e Peru. Em seu testamento, San Martín legou esta arma gloriosa a Juan Manuel de Rosas por sua firme defesa da soberania nacional diante de esquadras europeias. O museu expõe também a célebre série de quadros da Guerra do Paraguai pintados por Cándido López, que aprendeu a pintar com a mão esquerda após perder o braço direito na Batalha de Curupaytí durante o conflito da Tríplice Aliança entre 1864 e 1870.

    Ficar a poucos passos do sabre autêntico de San Martín faz reviver a magnitude épica da campanha que libertou três nações do continente americano. Passear diante dos quadros a óleo e estandartes históricos preservados nestes salões senhoriais inspira um profundo reconhecimento pelos bravos patriotas que forjaram a soberania sul-americana.

    Saia na Calle Brasil e olhe para a esquina com a Defensa para admirar as cúpulas azuis da Igreja Ortodoxa Russa.

  4. 4. Igreja Ortodoxa Russa da Santíssima Trindade

    Brasil 315, C1154 CABA, Argentina

    Diante do número 315 da Calle Brasil somos surpreendidos por um dos cenários arquitetônicos mais exóticos e poéticos de toda a América do Sul: a Igreja Ortodoxa Russa da Santíssima Trindade. Sagrada em outubro de 1901, esta joia da arquitetura eclesiástica moscovita de Yaroslavl do século dezessete foi concebida por Mikhail Preobrazhensky, arquiteto do Santo Sínodo de São Petersburgo, e erguida pelo arquiteto norueguês Alejandro Christophersen. Cinco radiantes cúpulas em bulbo azul-celeste, adornadas com estrelas de ouro e coroadas por cruzes ortodoxas presas por correntes douradas, destacam-se graciosamente sobre as copas das árvores de San Telmo.

    Olhe para o tímpano da fachada: um mosaico veneziano iluminado retratando a Santíssima Trindade foi confeccionado em São Petersburgo e trazido de navio em caixotes de madeira.

    A construção deste templo contou com o apoio financeiro direto do czar Nicolau Segundo da Rússia, que doou pessoalmente cinco mil rublos em moedas de ouro para que a comunidade diplomática e imigrantes eslavos no hemisfério sul tivessem um espaço de devoção. Ao cruzar o portal, o interior deslumbra com afrescos bizantinos que forram paredes e abóbadas. A iconóstase, trabalhada em porcelana finamente entalhada e madeiras douradas, foi esculpida na capital imperial russa com ícones criados por mestres da Academia Imperial de Belas Artes. Durante o século vinte, esta paróquia foi abrigo moral e espiritual para levas de imigrantes que fugiam de perseguições políticas e guerras na Europa Oriental.

    O contraste harmônico entre as palmeiras tropicais argentinas e as cúpulas celestiais eslavas sob o céu aberto é uma visão inesquecível do pluralismo portenho. Escutar a suave cadência dos cânticos litúrgicos diante da iconóstase de porcelana comprova como Buenos Aires sempre acolheu com afeto as mais diversas culturas do mundo.

    Caminhe quatro quadras ao norte pela Avenida San Juan até a entrada de tijolos do Museu de Arte Moderna.

  5. 5. Museu de Arte Moderna de Buenos Aires na Fábrica Piccardo

    Avenida San Juan 350, C1147 CABA, Argentina

    Na Avenida San Juan número 350 estamos diante da imponente fachada de tijolos à vista do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, carinhosamente chamado de El Moderno ou MAMBA. Erguido originalmente em 1918 como depósito e centro fabril da companhia de tabacos Piccardo, o edifício é um soberbo exemplar de arquitetura industrial de matriz britânica. Suas arcadas ritmadas de tijolo vermelho, portões de carvalho maciço e detalhes de ferro fundido recordam o passado manufatureiro e portuário de San Telmo no início do século vinte.

    Observe a enorme porta de entrada: as padieiras de madeira entalhada e as antigas vigas fabris foram mantidas no projeto, homenageando os trabalhadores operários do bairro.

    Fundado em 1956 pelo dinâmico crítico de arte Rafael Squirru, o museu funcionou em sedes provisórias até se instalar definitivamente neste complexo industrial revitalizado em 1989. Uma ampla reforma em 2018 conectou os antigos galpões com uma escada escultural de aço negro, oferecendo mais de quatro mil metros quadrados de salas de exposição de alto nível internacional. O acervo permanente ultrapassa sete mil obras de vanguarda argentina e internacional desde a década de 1940. Aqui brilham criações de arte cinética de Julio Le Parc, o concretismo geométrico do Grupo Madí, as telas surrealistas de Xul Solar e obras conceituais de Marta Minujín, pioneira das performances latino-americanas no Instituto Di Tella nos anos sessenta.

    Passar dos paralelepípedos coloniais de San Telmo para estas amplas galerias industriais repletas de esculturas luminosas e arte contemporânea proporciona uma vibrante experiência cultural. Circular entre instalações multimídia e pinturas de vanguarda revela a inquietação criativa constante que mantém a capital argentina na liderança da arte latino-americana contemporânea.

    Caminhe uma quadra a oeste pela Calle Defensa para admirar as torres históricas da Igreja de San Pedro Telmo.

  6. 6. Igreja de San Pedro González Telmo e os Claustros

    Humberto 1º 340, C1103 CABA, Argentina

    Diante das torres gêmeas e do portal trabalhado da Paróquia de San Pedro González Telmo, na Calle Humberto 1º número 340, contemplamos um dos templos mais carismáticos e antigos da capital. Iniciada em 1734 pela Companhia de Jesus sob traçado dos arquitetos jesuítas Andrés Blanqui e Juan Bautista Prímoli como Igreja de Nossa Senhora de Belém, a edificação foi interrompida com a expulsão da ordem em 1767. Os Frades Betlemitas assumiram o complexo em 1806, erguendo um hospital de caridade e um convento anexo.

    Olhe para o topo das torres sineiras: elas são revestidas por azulejos de cerâmica vitrificada que reluzem sob a luz do sol, instalados em 1858 pelo arquiteto Pedro Benoit.

    Em 1806, a igreja foi dedicada a São Pedro González Telmo, frade dominicano do século treze venerado como santo protetor dos marinheiros e barqueiros que enfrentavam os perigos do Rio da Prata. Durante a trágica epidemia de febre amarela de 1871, que vitimou mais de catorze mil habitantes em Buenos Aires, os frades betlemitas transformaram o convento em hospital de emergência, cuidando dos enfermos com heroísmo até que muitos deles sucumbiram ao contágio. A tragédia levou as famílias ricas a abandonarem suas mansões aristocráticas em San Telmo para se mudarem para a Recoleta, transformando estes casarões em cortiços coletivos, chamados de conventillos, para imigrantes italianos e espanhóis.

    O repique dos sinos centenários ecoando pelas ruelas de pedra traz à tona a devoção e o heroísmo que moldaram a alma comunitária deste bairro histórico. Estar dentro do claustro sombreado rodeado por arcos coloniais transmite a generosidade de uma irmandade que deu a própria vida para salvar seus concidadãos em horas de dor.

    Caminhe meia quadra ao sul pela Calle Humberto 1º para adentrar o agitado coração da Plaza Dorrego.

  7. 7. Plaza Dorrego e as Milongas ao Ar Livre

    Humberto 1º 400, C1103 CABA, Argentina

    Estamos no centro vibrante da Plaza Dorrego, a segunda praça pública mais antiga de Buenos Aires depois da Plaza de Mayo. Aberta no século dezessete com o nome de Hueco do Alto de San Pedro, este pátio de terra batida serviu durante séculos como ponto de descanso onde carroças de bois vindas do interior desatrelavam seus animais antes de entrar na cidade. Em setembro de 1816, o povo de Buenos Aires reuniu-se solemnemente neste local para jurar lealdade à declaração da independência nacional proclamada em Tucumán.

    Olhe ao redor da praça: o chão de pedras é sombreado por tipas centenárias e ladeado por bares notáveis como o Bar Plaza Dorrego, fundado em 1881, onde o escritor Ernesto Sábato costumava escrever.

    Aos domingos pela manhã, a praça abriga a lendária Feira de San Telmo, criada em 1970 pelo arquiteto José María Peña. Mais de duzentas e setenta barracas licenciadas cobrem a calçada com toalhas de veludo, exibindo joias antigas, cuias de mate em prata, sifões de vidro colorido, vitrolas de tango e louças finas trazidas pelos imigrantes europeus. Ao cair da tarde de domingo, as mesas dos cafés são afastadas e as pedras da praça viram uma pista de milonga ao ar livre. Dançarinos experientes de chapéu e terno abraçam suas parceiras sob a luz dos postes a gás, executando passos complexos ao som de Carlos Di Sarli e Osvaldo Pugliese, enquanto o público saboreia cerveja gelada ou vinho Malbec.

    Sentir a batida sincopada do tango ressoando nos paralelepípedos coloniais da Plaza Dorrego é vivenciar a tradição boêmia mais autêntica de Buenos Aires. Assistir aos passos graciosos dos dançarinos sob os lampiões de ferro forjado faz entender por que esta praça cativou poetas e viajantes do mundo inteiro ao longo dos séculos.

    Caminhe uma quadra ao norte pela Calle Defensa para cruzar os portões de ferro do Mercado de San Telmo.

  8. 8. Mercado de San Telmo e a Cúpula de Ferro Fundido

    Defensa 963, C1065 CABA, Argentina

    Entre pelo pórtico de arcos na Calle Defensa número 963 para mergulhar no agito apetitoso do Mercado de San Telmo. Inaugurado em fevereiro de 1897, este monumento da arquitetura de ferro foi projetado pelo arquiteto italiano Juan Antonio Buschiazzo, que liderou os grandes projetos de modernização da capital. Buschiazzo combinou fachadas italianas em alvenaria com uma sofisticada estrutura interna de colunas de ferro fundido, treliças metálicas e uma espetacular cúpula central com claraboias de vidro trazidas de fundições da Europa.

    Olhe para o alto da cúpula central: as armações de ferro trabalhado e os vitrais preservam a iluminação natural suave que clareia as barracas de frutas e especiarias há mais de um século.

    Quando abriu suas portas no final do século dezenove, o mercado visava abastecer com alimentos frescos e carnes de qualidade as famílias de imigrantes operários instaladas nos conventillos vizinhos. Ali se ouviam comerciantes genoveses, açougueiros galegos e quitandeiros bascos negociando cortes de carne bovina e pescados do Rio da Prata. Hoje, além dos tradicionais açougues e bancas de verduras, o mercado tornou-se um paraíso gastronômico da cidade. Os visitantes podem provar empanadas assadas na hora, café de torra especial, lanches de choripán com molho chimichurri e passear por dezenas de estandes que vendem discos de vinil antigos, brinquedos de lata e cartazes históricos.

    O aroma de carnes grelhadas misturado com o burburinho alegre dos clientes sob as vigas de ferro centenárias traduz o pulsar acolhedor da cultura gastronômica portenha. Percorrer os corredores do mercado cercado por placas históricas, antiguidades raras e o calor humano das conversas de café traduz o charme intemporal deste recanto da cidade.

    Saia pela Calle Defensa e caminhe até o número 1179 para visitar o casarão histórico do Pasaje de la Defensa. Provar as iguarias típicas e conversar com os feirantes tradicionais oferece um mergulho inesquecível na vida cotidiana de San Telmo.

  9. 9. Pasaje de la Defensa e a Residência dos Ezeiza

    Defensa 1179, C1143 CABA, Argentina

    Ao cruzar os pesados portões de madeira na Calle Defensa número 1179, entramos na luminosidade tranquila dos pátios internos do Pasaje de la Defensa, conhecido como a Casa dos Ezeiza. Construída por volta de 1880 como mansão urbana da influente e rica família patrícia Ezeiza, esta casa de dois andares representa o auge da arquitetura residencial neorrenascentista italiana antes da epidemia de febre amarela. O casarão articula-se ao redor de pátios sucessivos ladrilhados com mármore italiano de Carrara e circundados por galerias com balaustradas de ferro forjado.

    Observe o poço colonial no centro do primeiro pátio sombreado por palmeiras: era o refúgio das damas da aristocracia para tomar mate nas tardes ensolaradas longe da poeira da rua.

    Com a eclosão da febre amarela em 1871, a família Ezeiza fugiu do casarão para instalar uma nova residência na Recoleta. O palacete abandonado foi então alugado e transformado em um movimentado conventillo. No início do século vinte, mais de trinta famílias de trabalhadores italianos, espanhóis e afro-argentinos moravam divididas nos trinta aposentos, partilhando uma única cozinha e tanque coletivo no pátio. Foi exatamente nesses cortiços que os dialetos de Nápoles e da Galiza se fundiram com o falar criollo, dando origem ao dialeto gíria lunfardo e às primeiras melodias e passos sincopados do tango. Hoje, o imóvel restaurado acolhe ateliês de couro, antiquários e lojas de desenho de autor.

    Andar sobre o assoalho de madeira das galerias superiores permite entrever num mesmo espaço a opulência dos nobres e a coragem dos trabalhadores imigrantes que transformaram a Argentina. Olhar para o pátio de mármore onde brincavam crianças de tantas origens diferentes revela a semente fraterna da sociedade argentina contemporânea.

    Dobre a esquina rumo ao Pasaje San Lorenzo para conhecer a curiosa Casa Mínima. Admirar as colunas de ferro e as portas de madeira maciça enriquece o olhar com a dignidade deste monumento vivo.

  10. 10. Casa Mínima e as Lendas do Pasaje San Lorenzo

    Pasaje San Lorenzo 380, C1065 CABA, Argentina

    No pitoresco e estreito calçamento de pedras do Pasaje San Lorenzo encontramos uma das relíquias arquitetônicas mais fotografadas e queridas de Buenos Aires: a Casa Mínima, no número 380. Com apenas dois metros e meio de frente e treze metros de profundidade, esta graciosa casinha caiada de dois pavimentos ostenta o recorde imbatível de ser a residência unifamiliar mais angosta e compacta de toda a metrópole portenha.

    Olhe para a fachada singela: no térreo abre-se uma discreta porta verde de madeira, enquanto no andar superior assoma uma pequena sacada de ferro forjado sob beiral de telhas coloniais.

    Uma das lendas populares mais conhecidas sustenta que o imóvel teria sido edificado no início do século dezenove por um patrão rico para presentear seu escravo liberto após a promulgação da Lei de Ventre Livre de 1813 e a abolição da escravidão. Porém, escavações arqueológicas e pesquisas documentais conduzidas pelo museu de El Zanjón de Granados desmentiram o conto romântico: a casinha era parte de um solar colonial bem maior, fracionado nos anos de 1870 para aluguel popular. Sob as pedras do pasaje corria antigamente o arroio Tercero del Sur, riacho pampeano que desembocava no Rio da Prata e cujos túneis drenados revelaram restos de garrafas de gim e cachimbos holandeses do século dezoito.

    Sua silhueta diminuta resistindo com dignidade entre construções vizinhas evoca o espírito poético dos trabalhadores e carpinteiros de San Telmo. Ficar diante desta portinha singela e sacada de ferro num beco calçado de pedras proporciona uma sensação inesquecível de intimidade e beleza colonial no coração da metrópole portenha.

    Caminhe em direção à Calle Balcarce com a Avenida Independencia para chegar à esquina de El Viejo Almacén. As lendas de escravos alforriados e os vestígios arqueológicos fluviais conferem a esta pequena casa um magnetismo histórico irresistível para os visitantes.

  11. 11. El Viejo Almacén e o Templo do Tango de Edmundo Rivero

    Balcarce & Av. Independencia, C1064 CABA, Argentina

    Estamos diante da lendária esquina de Balcarce com Avenida Independencia perante as paredes brancas de El Viejo Almacén, um dos maiores altares sagrados do tango portenho. Erguida originalmente em 1798 durante o Vice-Reinado como armazém de campo e taverna rural, chamada de pulpería, esta edificação de paredes grossas de tijolo e vigas de madeira de quebracho serviu como hospital britânico, posto de alfândega e taverna de marinheiros ao longo de mais de século e meio.

    Observe a placa de bronze na fachada: ela assinala o dia 8 de maio de 1969, data em que o inesquecível cantor de tango Edmundo Rivero abriu este templo musical.

    Rivero, dono de uma voz grave profunda incomparável e virtuosístico violonista, adquiriu a velha taverna em ruínas para criar um espaço que protegesse a pureza do tango das concessões comerciais. Batizou o local inspirado na letra de Sentimiento gaucho de 1924: Num velho armazém do Paseo Colón, onde vão os que perderam a fé. Por este palco íntimo de tábuas de madeira passaram monstros sagrados da música portenha: o bandoneonista Aníbal Troilo, o pianista Osvaldo Pugliese, o violonista Enrique Francini e o maestro Horacio Salgán. Reis, poetas e atores de cinema como Marcello Mastroianni ocuparam estas mesas para escutar tangos entoados com gírias de lunfardo. Na calçada oposta, uma estátua de bronze imortaliza Edmundo Rivero abraçando seu violão.

    Quando os postes a gás se acendem ao anoitecer, o choro rasgado do bandoneón parece brotar das próprias vigas coloniais com comovente nostalgia. Respirar a atmosfera boêmia desta esquina histórica onde Edmundo Rivero cantou versos inesquecíveis consagra a imortalidade da música cidadã de Buenos Aires.

    Siga para o norte pela Calle Balcarce até encontrar a fachada imponente da Basílica de Santo Domingo. Ficar diante deste casarão colonial sob a luz dourada dos lampiões de rua faz recordar os versos nostálgicos da poesia popular portenha.

  12. 12. Basílica de Santo Domingo e o Mausoléu de Manuel Belgrano

    Defensa 422, C1065 CABA, Argentina

    Concluímos este roteiro por San Telmo diante da imponente fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário e Convento de Santo Domingo. Edificado a partir de 1751 pelo arquiteto italiano Antonio Masella e concluído em 1783, este monumento colonial é um dos mais sagrados e comoventes memoriais da história argentina, ligado de forma indissolúvel aos feitos heroicos da pátria.

    Olhe com atenção para a torre sineira esquerda: embutidos na alvenaria branca estão vários tocos de madeira que assinalam onde impactaram balas de canhão disparadas na heroica defesa contra as invasões inglesas de julho de 1807.

    Naquela batalha decisiva, as tropas britânicas do general John Whitelocke entrincheiraram-se dentro deste convento antes de capitularem diante dos milicianos criollos. No interior do templo, no camarim da Virgem, descansam as bandeiras regimentais do regimento britânico Green Hunters capturadas como troféus militares pelo vice-rei Santiago de Liniers. No pátio de pedras do adro ergue-se o imponente Mausoléu do General Manuel Belgrano, herói da independência e criador da bandeira nacional celeste e branca. Belgrano nasceu em 1770 a cem metros daqui e faleceu pobre em junho de 1820. O monumento de mármore e bronze foi esculpido em 1903 pelo mestre italiano Ettore Ximenes, sustentando um sarcófago elevado ladeado por quatro figuras alegóricas de bronze que representam o Pensamento e a Liberdade.

    A atmosfera de recolhimento deste claustro histórico diante do mausoléu de Belgrano encerra nosso percurso por San Telmo com um sentimento inesquecível de orgulho e respeito. Admirar os baixos-relevos de mármore e as bandeiras históricas coroa nossa caminhada com uma profunda homenagem àqueles que construíram uma nação livre.

    Você concluiu o roteiro de San Telmo; aproveite para saborear um café da tarde nos antiquários vizinhos ou passear pelas ruelas de pedra. O silêncio solene que envolve o túmulo de Manuel Belgrano despede o viajante com uma profunda reverência à história cívica do país.