Plaza de Mayo, Avenida de Mayo e o Eixo Cívico: O Coração Histórico de Buenos Aires

Da Casa Rosada e Cabildo ao Palacio Barolo e o Congresso da Nação Argentina

Buenos Aires · 12 stops · 28 min audio · Generated

  1. 1. Casa Rosada e o Balcão Presidencial sobre a Plaza de Mayo

    Balcarce 50, C1064 CABA, Argentina

    Bem-vindos ao coração político e cívico da República Argentina diante da inconfundível silhueta rosada da Casa Rosada. Erguida sobre as fundações do antigo Forte Real de São João Baltasar de Áustria do final do século dezesseis, a sede da presidência da nação adquiriu o seu aspecto monumental atual em 1898, quando o arquiteto italiano Francisco Tamburini uniu o antigo Palácio dos Correios à sede do governo colonial por meio de um imponente arco triunfal central.

    Por que o palácio presidencial possui esta cor rosa tão característica? A tradição histórica argentina afirma que em 1873 o presidente Domingo Faustino Sarmiento ordenou pintar as fachadas misturando cal virgem com sangue de boi fresco. Essa técnica comum de impermeabilização rural continha também um poderoso simbolismo de união cívica: fundir o vermelho dos Federalistas com o branco puro dos Unitários para selar a paz após décadas de guerras civis.

    Dos balcões históricos voltados para a praça ecoaram alguns dos momentos mais comoventes da história sul-americana. Em outubro de 1945, centenas de milhares de operários lotaram a esplanada exigindo a libertação do coronel Juan Domingo Perón, dando origem ao peronismo. Poucos anos depois, a voz emocionada de Eva Duarte de Perón—eternizada como Evita—falava aos descamisados antes de sua precoce morte em 1952. O palácio também foi testemunha dos trágicos bombardeios navais de junho de 1955, cujas marcas de estilhaços ainda podem ser vistas em ministérios vizinhos. No subsolo, o Museu do Bicentenário exibe o mural monumental Exercício Plástico, pintado em 1933 pelo mestre mexicano David Alfaro Siqueiros.

    Observar os Granadeiros a Cavalo em uniformes históricos azuis e vermelhos guardando os portais da presidência transmite toda a solenidade republicana deste solo sagrado. Parar nesta praça aberta diante da fachada rosada permite contemplar as memórias das grandes manifestações populares que moldaram a vida política de toda a nação.

    Caminhe em direção ao centro da praça para contemplar a histórica Pirámide de Mayo.

  2. 2. Pirámide de Mayo e os Lenços Brancos da Memória

    Plaza de Mayo, C1084 CABA, Argentina

    No centro geométrico da Plaza de Mayo ergue-se a Pirámide de Mayo, o primeiro monumento patriótico construído em Buenos Aires. Encomendada pela Primeira Junta de Governo em março de 1811 para celebrar o primeiro aniversário da Revolução de Maio de 1810, a estrutura original de tijolos e cal foi erguida pelo mestre de obras Pedro Vicente Cañete em apenas algumas semanas. Em 1856, o pintor e arquiteto Prilidiano Pueyrredón reformou o monumento, revestindo a primitiva coluna e coroando-a com uma estátua francesa que representa a Liberdade com o barrete frígio.

    Olhe para o chão de pedras ao redor da base: pintados em tinta branca sobre o granito estão dezenas de lenços estilizados, conhecidos como pañuelos blancos.

    Em 30 de abril de 1977, durante a ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1983, catorze mães corajosas reuniram-se nesta praça exigindo notícias sobre seus filhos sequestrados pelas forças de segurança. Como reuniões com mais de três pessoas eram proibidas sob a lei marcial, os policiais ordenaram que circulassem. Elas deram os braços e começaram a marchar em círculos ao redor da pirâmide todas as quintas-feiras às três e meia da tarde, cobrindo as cabeças com fraldas de pano e lenços brancos bordados com os nomes dos desaparecidos. A coragem inquebrantável dessas mulheres transformou este obelisco em um santuário universal dos direitos humanos. A própria praça era dividida por uma arcada comercial colonial até 1884, quando o prefeito Torcuato de Alvear demoliu a Recova para unificar o espaço público.

    Caminhar ao lado dos lenços brancos pintados no chão evoca uma profunda reverência pela resistência cívica e pela busca incansável por memória, verdade e justiça. A quietude das pedras históricas sob a sombra das palmeiras convida a uma reflexão serena sobre a força moral das mães que desafiaram a opressão.

    Atravesse para o canto norte da praça diante das imponentes colunas clássicas da Catedral Metropolitana.

  3. 3. Catedral Metropolitana de Buenos Aires e Mausoléu de San Martín

    San Martín 27, C1004 CABA, Argentina

    Diante do limite norte da Plaza de Mayo, ergue-se uma fachada imponente que lembra mais um templo grego clássico do que uma catedral católica: a Catedral Metropolitana de Buenos Aires. Fundada em 1580 na segunda fundação da cidade por Juan de Garay, o templo desabou e foi reconstruído diversas vezes até a conclusão de seu monumental pórtico neoclássico em 1827, projetado pelos arquitetos franceses Prosper Catelin e Pierre Benoit. Doze colunas coríntias colossais sustentam a entrada, simbolizando os doze apóstolos, enquanto o frontão triangular esculpido retrata a reconciliação bíblica de José com seus irmãos no Egito.

    Repare na parede lateral à direita das colunas: uma tocha de bronze mantém acesa uma chama eterna em homenagem ao General José de San Martín e aos heróis da independência.

    Entre na suave penumbra da nave principal, onde mosaicos venezianos cobrem o piso sob abóbadas douradas. Na nave lateral direita repousa o imponente mausoléu de mármore do General José de San Martín, o Libertador da Argentina, Chile e Peru. Esculpido em Paris em 1880 pelo mestre Albert-Ernest Carrier-Belleuse, o sarcófago de mármore negro é guardado dia e noite por dois sentinelas do Regimento de Granadeiros a Cavalo. Três figuras femininas em mármore de Carrara representam os três países que ele libertou. De 1998 até sua eleição papal em 2013, o cardeal Jorge Mario Bergoglio presidiu esta sé como Arcebispo de Buenos Aires, utilizando o metrô para visitar as periferias antes de se tornar o Papa Francisco.

    O contraste entre o austero pórtico grego exterior e o retábulo colonial em cedro entalhado e dourado de 1785 no interior guarda séculos de espiritualidade viva. Ao contemplar a chama eterna e a guarda solene dos granadeiros, percebe-se como a fé e a epopeia da independência permanecem entrelaçadas nesta grande sé metropolitana.

    Atravesse em direção aos arcos brancos e torre histórica do Cabildo de Buenos Aires.

  4. 4. Cabildo Histórico e a Sala da Revolução de Maio

    Bolívar 65, C1066 CABA, Argentina

    Diante de nós erguem-se as paredes caiadas de branco, os telhados coloniais de barro e a torre do relógio do Cabildo Histórico de Buenos Aires, o berço cívico da soberania nacional. Estabelecido em 1608 como sede da administração municipal colonial do Vice-Reinado do Rio da Prata, este edifício foi redesenhado no estilo barroco jesuítico pelos arquitetos italianos Andrés Blanqui e Juan Bautista Prímoli a partir de 1725, com arcadas ritmadas de volta perfeita nos dois pavimentos.

    Se você observar antigas gravuras do século dezenove, verá que o Cabildo possuía originalmente onze arcadas de cada lado da torre em vez das cinco atuais.

    Em 1889, três arcos ao norte foram demolidos para a abertura da Avenida de Mayo e, em 1931, outros três arcos foram retirados para abrir a Diagonal Sur. O edifício foi restaurado à sua harmonia colonial atual em 1940 pelo arquiteto Mario Buschiazzo. Foi na Sala Capitular do segundo andar que, em 25 de maio de 1810, os líderes criollos depuseram o vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros e estabeleceram a Primeira Junta, o primeiro governo autônomo da região. No pátio interno, um poço colonial de pedra convive com laranjeiras frondosas, enquanto as salas do museu exibem móveis da época da independência, peças de prata, carruagens e documentos fundacionais da república.

    Tocar nas grossas paredes coloniais de adobe e ferro forjado aproxima você das intensas discussões que acenderam a chama da liberdade em toda a América do Sul. Olhando para o pátio interno com suas laranjeiras e arcos de tijolos, é fácil imaginar a ansiedade dos cidadãos reunidos debaixo de chuva naquela manhã de maio para exigir a soberania do povo.

    Caminhe duas quadras pela Calle Bolívar até entrar no enclave colonial da Manzana de las Luces. Observar este baluarte colonial no coração da metrópole moderna reforça a dignidade das primeiras decisões patrióticas.

  5. 5. Manzana de las Luces e os Túneis Subterrâneos Jesuítas

    Perú 272, C1067 CABA, Argentina

    Você está diante da Manzana de las Luces, o histórico Quarteirão das Luzes, delimitado pelas ruas Bolívar, Moreno, Alsina e Perú. Em 1661, a Companhia de Jesus instalou aqui o seu colégio principal e claustros monásticos, tornando o local o centro do saber da região platina. Com a expulsão dos jesuítas pela Coroa espanhola em 1767, o quarteirão tornou-se a incubadora do pensamento independente: acolheu o Real Colégio de San Carlos, a Biblioteca Nacional fundada por Mariano Moreno em 1810 e a Universidade de Buenos Aires criada em 1821.

    Em 1821, o jornal El Argos batizou o quarteirão de Manzana de las Luces em alusão à reunião única de instituições do Iluminismo e faculdades universitárias que operavam nestes pátios.

    Porém, sob estes corredores acadêmicos de tijolos e pátios silenciosos, esconde-se um fascinante segredo subterrâneo. Entre o final do século dezessete e o início do dezoito, os jesuítas escavaram uma complexa rede de túneis abobadados no barro denso pampeano. Sem argamassa, essas galerias secretas conectavam o colégio ao forte da beira-rio, à Igreja de San Ignacio e a conventos da zona sul. Redescobertos em 1912, os túneis serviam como rotas de fuga contra invasões marítimas de piratas, depósitos de munição e canais de contrabando. Na vizinha Igreja de San Ignacio, sagrada em 1722, encontra-se o mais antigo interior colonial preservado de Buenos Aires.

    Percorrer estes arcos de alvenaria secular transmite a atmosfera dos debates intelectuais e mistérios clandestinos que forjaram a nação. A tranquilidade silenciosa dos claustros contrasta de forma impressionante com os segredos dos túneis subterrâneos escavados no solo argiloso para guardar pólvora e proteger vidas durante invasões navais coloniais.

    Caminhe uma quadra ao norte pela Calle Perú até a torre imponente do Palácio da Legislatura. Caminhar sob estas galerias históricas de tijolo revela a herança profunda do ensino e da pesquisa científica colonial.

  6. 6. Palácio da Legislatura Porteña e a Torre do Carrilhão

    Perú 160, C1067 CABA, Argentina

    Na esquina da Calle Perú com a Diagonal Sur ergue-se o Palácio da Legislatura Porteña, o parlamento autônomo da Cidade de Buenos Aires. Projetado pelo arquiteto argentino Héctor Ayerza e inaugurado em 3 de outubro de 1931, este palácio é um modelo magnífico do Neoclassicismo Acadêmico Francês inspirado no estilo Luís Dezesseis. O edifício acomoda salões de mármore nobre, colunas coríntias e um majestoso plenário semicircular revestido em madeiras finas de nogueira e carvalho.

    Olhe para o topo da torre de noventa e sete metros inspirada nos campanários do norte da França: ela abriga um relógio de quatro mostradores e um carrilhão musical raro.

    Fundido pela renomada fundição Apolda na Alemanha, o carrilhão é composto por trinta sinos de bronze que pesam juntos mais de vinte e sete toneladas. Quando inaugurado, figurava entre os maiores e mais afinados da América do Sul, capaz de executar canções clássicas e marchas patrióticas sobre o centro urbano. O palácio também foi palco de profunda comoção social: entre 1946 e 1952, Eva Perón instalou aqui a sede da Fundação Eva Perón, no Salão Dourado do primeiro andar. Todas as manhãs, milhares de mães humildes e trabalhadores formavam filas na Diagonal Sur para receber atendimento médico, enxovais e auxílio direto de Evita. O salão é inspirado na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes, com douramento a ouro de vinte e quatro quilates e lustres de cristal austríaco.

    O soar harmonioso dos trinta sinos de bronze sobre as avenidas do centro recorda a grandeza institucional e a ambição cívica da Buenos Aires dos anos trinta. Admirar as colunas coríntias e os salões revestidos de nogueira demonstra o primor construtivo que transformou a capital argentina em uma das metrópoles mais sofisticadas do mundo.

    Siga pela Diagonal Sur até a entrada histórica do Pasaje Roverano na Avenida de Mayo.

  7. 7. Pasaje Roverano e o Acesso Histórico à Linha A do Subte

    Avenida de Mayo 560, C1084 CABA, Argentina

    Entre pelo portal de pedra no número 560 da Avenida de Mayo para ingressar na atmosfera elegante do Pasaje Roverano. Aberto originalmente em 1878 pelos irmãos Roverano em terreno vizinho ao Cabildo, este corredor comercial coberto foi reformado em 1918 pelo arquiteto francês Eugenio Gantner no requintado estilo Art Nouveau. Gantner instalou vitrais curvos, corrimãos de latão trabalhado, claraboias de ferro fundido e vitrines de madeira que inundam o interior de luz natural suave.

    Caminhe até o meio da galeria e observe a escada ao fundo: o Pasaje Roverano possui a distinção única de ter uma escadaria privativa direta para a plataforma subterrânea da estação Perú do metrô.

    Quando a Linha A do Subte foi inaugurada em primeiro de dezembro de 1913, ela se tornou o primeiro sistema de metrô de toda a América Latina e do mundo hispânico. Construída pela Companhia de Bondes Anglo-Argentina, a linha transportava passageiros entre a Plaza de Mayo e a Plaza Miserere em vagões de madeira fabricados pela empresa belga La Brugeoise. Durante um século inteiro, até 2013, esses célebres trens de madeira—com lustres incandescentes e alças de couro—correram sob a Avenida de Mayo. Dentro do Pasaje Roverano, o tempo parece suspenso: barbearias tradicionais, alfaiatarias sob medida, colecionadores de moedas e filatelistas mantêm seus ofícios vivos com o charme tranquilo dos anos vinte.

    Olhar através das vitrines de madeira das antigas barbearias faz você sentir a nostalgia viva da época de ouro dos cafés e galerias de Buenos Aires. Descer a escadaria histórica até a plataforma do metrô centenário permite reviver o cotidiano elegante dos passageiros que percorriam os subterrâneos da cidade na década de vinte.

    Saia novamente na Avenida de Mayo e caminhe duas quadras a oeste até o lendário Café Tortoni. Esta travessia secreta sob a avenida monumental guarda o ritmo genuíno do comércio portenho tradicional.

  8. 8. Café Tortoni e as Tertúlias da Boêmia Literária Porteña

    Avenida de Mayo 825, C1084 CABA, Argentina

    Estamos diante das portas de bronze polido e marquise de vitrais do Café Tortoni, no número 825 da Avenida de Mayo. Fundado em 1858 por um imigrante francês de sobrenome Touan, inspirado no afamado Café Tortoni de Paris, o estabelecimento mudou-se para este endereço em 1893 com a abertura da grande avenida. Projetado pelo arquiteto Alejandro Christophersen em 1898, o salão exibe lambris de carvalho escuro, mesas de mármore italiano, claraboias com vitrais em estilo Tiffany e poltronas de couro que acolheram grandes pensadores do século vinte.

    Olhe pelas portas de vidro para o salão dos fundos: estátuas de cera em tamanho real homenageiam o cantor Carlos Gardel ao lado do escritor Jorge Luis Borges e da poeta Alfonsina Storni.

    Entre 1926 e 1943, o subsolo do café abrigou La Peña, um lendário grêmio cultural fundado pelo pintor Benito Quinquela Martín. Nas noites de sexta-feira, intelectuais, pintores e poetas reuniam-se na adega para recitar versos, tocar violoncelo e debater estética longe do barulho comercial. Carlos Gardel cantou aqui para círculos íntimos de amigos, e personalidades como Albert Einstein, Federico García Lorca, Arthur Rubinstein e Luigi Pirandello pediram café cortado e churros crocantes com chocolate quente nestas mesas. O Tortoni permanece como a alma da tradição dos cafés noturnos portenhos, onde as conversas se estendem pelas madrugadas ao som de versos de tango e acordes de bandoneón.

    Sentar-se sob a iluminação âmbar dos vitrais centenários enquanto garçons de colete servem xícaras fumegantes conecta você com a mais pura essência poética de Buenos Aires. Respirar o aroma doce dos churros e do café moído na hora entre as mesas de mármore italiano é participar de um ritual social que atravessa gerações de portenhos apaixonados por arte.

    Prossiga pela Avenida de Mayo até a esquina da Calle Hipólito Yrigoyen diante do Hotel Castelar.

  9. 9. Hotel Castelar e a Memória de Federico García Lorca

    Avenida de Mayo 1152, C1085 CABA, Argentina

    Na Avenida de Mayo número 1152 ergue-se a elegante fachada do Hotel Castelar. Inaugurado em dezembro de 1928 com o nome de Hotel Excelsior, este imponente edifício de dezesseis andares foi desenhado pelo arquiteto italiano Mario Palanti—o mesmo mestre visionário que criou o vizinho Palacio Barolo. A edificação rapidamente conquistou renome como ponto de encontro predileto para diplomatas, dramaturgos espanhóis e celebridades do circuito teatral da Avenida Corrientes.

    Olhe para as janelas da esquina no sétimo andar: o quarto 704 foi o refúgio criativo do genial dramaturgo e poeta espanhol Federico García Lorca.

    Lorca desembarcou em Buenos Aires em outubro de 1933 para uma viagem de conferências planejada para durar três semanas. Encantado com a paixão do público argentino, a magia noturna do tango e o sucesso retumbante de sua peça Bodas de Sangue no Teatro Avenida, o poeta prolongou a estada por seis meses inesquecíveis até março de 1934. No quarto do Castelar, cercado de partituras de piano, poemas e desenhos, Lorca recebeu amigos como Pablo Neruda, Norah Lange e Oliverio Girondo. O poeta declarou publicamente que Buenos Aires possuía uma energia espiritual e beleza sem igual em toda a América. Seu quarto foi preservado com mobiliário da época, manuscritos fac-similares e retratos como um tributo à sua passagem luminosa pela capital argentina.

    Contemplar o hotel na esquina arborizada desperta os ecos da poesia que uniu os corações da Espanha e do Rio da Prata nos anos trinta. Estar diante do quarto onde Federico García Lorca compôs versos e celebrou o calor humano da cidade evoca o período fecundo em que Buenos Aires se tornou o refúgio das mais brilhantes mentes hispânicas.

    Caminhe duas quadras adiante até a extraordinária cúpula do Palacio Barolo no número 1370. A memória poética de Lorca permanece viva nas janelas deste solar da avenida como testemunho de amizade hispânica.

  10. 10. Palacio Barolo e a Divina Comédia Esculpida em Concreto

    Avenida de Mayo 1370, C1085 CABA, Argentina

    Elevando-se sobre a Avenida de Mayo no número 1370, encontramos o Palacio Barolo, um dos monumentos mais simbólicos, originais e fascinantes do mundo. Encomendado em 1919 pelo empresário têxtil italiano Luis Barolo e projetado pelo arquiteto visionário Mario Palanti, este arranha-céu de cem metros foi concluído em 1923. Na época de sua inauguração, era o edifício de concreto armado mais alto de toda a América Latina e uma das maiores estruturas cívicas do planeta. Sua fachada eclética entrelaça elementos neogóticos, curvas neorromânicas e cúpulas que evocam templos hindus da Índia.

    Observe a composição arquitetônica do edifício: ele foi inteiramente concebido como uma homenagem matemática em três dimensões à Divina Comédia de Dante Alighieri.

    Palanti e Barolo, estudiosos apaixonados de Dante, temiam que as guerras europeias destruíssem os restos mortais do poeta na Itália, e planejaram o edifício para abrigar suas cinzas. A estrutura é dividida nos três reinos da obra dantesca: o térreo e dois subsolos representam o Inferno; do primeiro ao décimo quarto andar estende-se o Purgatório; e do décimo quinto ao vigésimo segundo situa-se o Paraíso. O edifício tem cem metros de altura, espelhando os cem cantos do poema épico, e vinte e dois andares refletem a métrica de certas estrofes. No topo do Paraíso gira um farol marítimo com lâmpada de trezentas mil velas, alinhado sobre o Rio da Prata para cruzar seu facho luminoso com o de sua torre irmã em Montevidéu, o Palacio Salvo.

    Olhar para as abóbadas centrais decoradas com inscrições latinas e figuras de gárgulas revela a fantástica erudição mística contida no concreto portenho. A transição visual da escuridão do saguão térreo rumo à luz celestial do farol no topo proporciona uma experiência estética ímpar que transporta a poesia clássica de Dante para o coração da América Latina.

    Caminhe duas quadras até a ampla esplanada da Plaza del Congreso para encontrar a escultura de O Pensador.

  11. 11. Plaza del Congreso e O Pensador em Bronze de Rodin

    Plaza del Congreso, C1084 CABA, Argentina

    Ao entrar nos jardins da Plaza del Congreso, você atinge a extremidade oeste do grande eixo cívico que une o poder executivo na Casa Rosada ao poder legislativo nacional. Inaugurada em janeiro de 1910 como parte das comemorações do primeiro centenário da pátria, esta ampla praça ajardinada foi projetada pelo paisagista franco-argentino Carlos Thays. O setor leste da praça é dominado pelo Monumento aos Dois Congressos, uma monumental fonte esculpida pelo artista belga Jules Lagae com cavalos de bronze saltando entre cascatas que celebram a Assembleia de 1813 e a Independência de 1816.

    Suba até o terraço elevado perto da avenida: sentado sobre uma base de pedra repousa uma escultura em bronze original mundialmente famosa—O Pensador de Auguste Rodin.

    Fundida em Paris diretamente a partir do molde original do próprio Rodin e assinada pelo mestre escultor, a estátua foi adquirida pelo governo argentino e instalada nesta esplanada em novembro de 1907. É uma das poucas fundições originais realizadas durante a vida de Rodin pela lendária fundição Alexis Rudier. A estátua deveria coroar a escadaria principal do palácio legislativo, mas com as demoras nas obras foi alocada nos jardins da praça, cercada por jacarandás e tipas seculares. Em frente ao monumento repousa o monólito do Quilômetro Zero, inaugurado em 1935, a partir do qual são medidas todas as rodovias nacionais que percorrem o vasto território argentino.

    Admirar a postura reflexiva do gigante de bronze de Rodin diante do borbulhar da fonte monumental representa o elevado prestígio cultural da Argentina no início do século vinte. O verde exuberante das árvores seculares e a vista ampla em direção à cúpula do parlamento oferecem um momento de encantamento e tranquilidade no coração cívico da metrópole.

    Caminhe em direção à imponente escadaria de mármore e cúpula esmeralda do Palácio do Congresso Nacional.

  12. 12. Palácio do Congresso Nacional e a Confitería del Molino

    Avenida Rivadavia 1864, C1033 CABA, Argentina

    Concluímos este percurso cívico diante da monumental fachada neoclássica do Palácio do Congresso da Nação Argentina, tendo à frente a recém-restaurada joia em Art Nouveau da Confitería del Molino. Projetado pelo arquiteto italiano Vittorio Meano e inaugurado em 1906, o palácio legislativo é revestido em mármore e granito cinza, sustentado por seis colunas coríntias colossais. Elevando-se a oitenta metros de altura sobre a cidade brilha a majestosa cúpula de cobre oxidado, pesando mais de trinta mil toneladas em seu tom inconfundível verde-esmeralda.

    Olhe sobre o pórtico de entrada para o conjunto escultórico em bronze de oito metros de altura: uma Vitória alada conduz uma quadriga clássica de quatro cavalos fogosos, criada pelo escultor veneziano Victor de Pol.

    Atrás das portas monumentais de bronze, o Senado e a Câmara dos Deputados legislaram ao longo de mais de um século de história democrática. Atravesse o olhar para a esquina oposta, onde se ergue a Confitería del Molino, inaugurada em 1916 pelo arquiteto italiano Francesco Gianotti. Coroada por uma torre de cinco andares com as pás de moinho em vitral que giravam com a brisa, esta confeitaria elegante era chamada de a terceira câmara do congresso, pois ali senadores e deputados costumavam selar alianças políticas ao redor de champanhe e doces finos. Após anos de abandono, uma primorosa restauração pública devolveu o brilho aos seus vitrais, lustres e balcões de madeira de lei.

    Estar entre a grandiosa cúpula verde do parlamento e o moinho dourado de Gianotti faz sentir a escala monumental e a elegância atemporal da capital argentina. Olhar para trás ao longo de toda a perspectiva arborizada da Avenida de Mayo em direção à Casa Rosada permite compreender a força visual e histórica deste grande eixo republicano.

    Completamos aqui este itinerário pelo eixo cívico de Buenos Aires; aproveite para explorar os cafés e livrarias da tradicional Avenida Corrientes.